14

como são penosos
os jogos de amor
para quem não sabe jogar

17

costumava me perguntar
quando deitávamos na cama
no que é que eu estava pensando

eu aumentava a força do abraço
e sorria, achando graça de tudo aquilo
era bonito saber que só o corpo não bastava

primeiro vinha o medo,
medo de perdê-la, medo de que passasse.
depois vinham os planos,
quero me casar com essa mulher, pensava,
para tê-la comigo assim todos os dias.
em seguida, a beleza.
como é lindo esse momento, essas curvas
esse cheiro e nossos corpos tão juntos.
a gratidão não poderia faltar,
aprendi desde cedo a ser grata
por tudo que provoca riso,
e cada vez que ela respirava, uma dádiva,
me sentia quase indigna de tal presente.

pensava tudo isso,
não necessariamente nessa ordem.
e outras coisas também.
mas havia sempre um momento
em que a entrega era tão grande
que os pensamentos despareciam
evaporavam, esvaiam,
dissipavam-se no meio de nós.

e era justamente nessa hora,
em que eu parecia tão distante
que ela me perguntava.
mas

como é que eu ia dizer

já pensei em tantas coisas e passou,
pois quando estou com você, 
estou tão verdadeiramente 
que todos os pensamentos somem 
como em uma meditação involuntária.
e sua energia que entra em mim pelos pés
quando chega até a cabeça
já se misturou à minha
e eu fico assim silêncio
fico assim sorriso bobo
mas por favor não pense que é só corpo
não pense que não estou pensando em você

?

então eu só dizia
nada, não estou pensando em nada

e ela nem desconfiava
do caminho percorrido
para chegar até ali

18

jogo cinzas às flores pela janela.
elas continuam vivas e coloridas.

me sinto destrutiva.

destrutiva como uma criança
que esmaga pequenos insetos
e espanta os pássaros que só
querem comer suas migalhas em paz.

por isso não coloque nada em minhas mãos,
eu posso estragar tudo.

certa vez o pastor do internato disse
que sou uma pessoa de luz,
que onde minhas mãos tocarem
há de fluir coisas boas
e ainda disse que o número
da tatuagem que fiz com quinze anos
possui uma cabala incrível
em sintonia com todo o resto de mim

duvido

semana passada, enquanto observava o mar
sentada sozinha nas escadas da praia
um vendedor de cerveja parou para conversar
era do interior, feirense com orgulho
me mostrou sua identidade,
da qual não me recordo mais
tampouco me lembro do seu nome
só sei que começava com "j"
joaquim, juscelino, tanto faz.
mas novamente esse papo
de que eu sou uma boa pessoa.
e se arrepiou quando disse
que eu era uma ótima filha
que amava e respeitava meus pais.
comprei uma cerveja por conveniência
mas joguei fora antes de chegar na metade.
ainda olhando o mar, agradeci silenciosamente
por aquele homem ter interrompido seu caminho
e o meu dia, para dizer coisas bonitas.
havia convicção e verdade em suas palavras
e mesmo que eu não acreditasse em todas
ele acreditava e continuava se arrepiando
enquanto me sorria e desejava coisas boas.

ainda não sei qual o poder das minhas mãos
se faço as flores murcharem ou desabrocharem
se as cinzas que jogo são veneno ou adubo

continuo debruçada na janela
jogando cinzas e esperando
para ver o que acontece

hoje a raiva se dissolveu na estrada

como um pneu se desgastando no asfalto e deu lugar a essa tristeza nada violenta que é também um muro duro e firme começando nos meus pés e terminando onde começa o outro. a tristeza se encolhe perante tudo que a raiva enfrentaria e esconde o que outrora seria exposto. eu me encolho. os argumentos se silenciam, as justificativas morrem em si mesmas e eu não quero ter razão. eu nunca quis ter razão. eu vou me esconder e ai de você se não me achar. 


20

o extremismo é a solução dos fracos,
dos descontrolados

daquele cuja vida dos sentimentos 
representa nada menos do que a própria vida

22

na embriaguez
esquece meu nome

e ao perdê-la de vista
me perco de nós

mas não tenho pressa
se é essa sua liberdade

sou livre a meu modo
prefiro a lucidez

consciência não é barreira
é caminho que leva a si

para ela, eu sou o atalho
é para isso que estou aqui

desperta horas depois e sente:
a realidade aumenta a pressão

espero até que volte a si
e temerosa, faço um pedido

more no meu coração
com o direito de ir e vir

e sinta-se feliz
como se fosse seu próprio lar

porque um dia
ah... um dia ele será!

24

se você não está,
aceito a noite
como mera consequência do fim do dia
esqueço o céu, finco os pés no chão

mas se você está,
invento um nome para cada estrela
e sobrenome para as três marias
transformo a escuridão em poesia 
faço do vazio imensidão

para ver seu riso frouxo e para rir junto
já nem sei quantas palavras 
sou capaz de escrever

e o pior, o pior de tudo 
que me deixa sem rumo
que me doi fundo o coração
é saber que essa será mais uma noite sem estrelas

25

saudade boa é saudade sentenciada
com dia, hora e local marcado pra acabar

e mesmo que a cada nova despedida
surja outro buraco

ter a certeza de que outra sentença 
há de ser cumprida
daqui um dia ou dois

-

a festa acabou
e eu quero voltar pra casa
mas sou carona do tempo
e ele me pediu calma 

28

a distância enfim nos alcançou
não pela primeira, nem pela última
vezenquando a vida há de nos afastar
para além do corpo físico

e para achar o caminho de volta
teremos que nos tatear no escuro
e quiçá nos agarrarmos desesperadamente

como quem tem
medo-pânico-pavor
não de perder o outro
mas de perder a si próprio

só sua respiração,
o barulho da sua respiração
despido de silêncio e roupa
anunciará o reencontro

e eu vou quebrar a calma
vou bater na sua cara,
vou cuspir na sua cara,
quando gritar em tom ensurdecedor
que não, eu não vou desistir de nós

31

quero que tua língua me molhe
tal qual onda desvirginando 
a secura dos meus pés

que tu entres em mim
como o movimento das águas
enterrando meus dedos na areia

que alternes entre calma e violência
mas nunca deixes de vir
me pegando assim despreparada
ensopando minha roupa
levando meus pertences

e que por fim me recomponha
me enxugue, me deite em tua cama
para que eu não saia na rua 
feito uma louca que acabou de se perder

amor,
sozinha eu não consigo
sozinha eu só consigo ser só

32

há uma estrela brilhante
reluzindo em seus cabelos.
me aproximo,
os vaga-lumes voam.

33

assumo minha identidade
minha sina
minha obsessão
escrever

sozinha
tento reconhecer
a realidade
que me chega tão distante

aqui nada acontece
a chuva não cai
a música não toca
quase não existo

existo onde você está

sua boca molhada em preto e branco
eu, você, os barcos da ribeira
seu corpo, silhueta da lua
quase me sinto real

ao telefone, mamãe deseja lembranças
mal sabe ela
me lembro até do que não vivi

34

vencerá
o verbo
a batalha feroz contra a carne?

ou cairá
exausto
diante do desejo imediato
e da insuficiência do dizer?

minha palavra
cansada
(de se deitar em tantas camas)
quer dormir
(e acordar com você)

que me transborde poesia
onde lhe falta

que nos transforme, a poesia,
em nuvem alta

35

ouço seu coração, uma bomba-relógio,
pronto para me descartar em explosão.
o barulho das horas incomoda.
não quero ser escombro
da sua catástrofe remediável.
eu quero ser a causa, a culpa,
o desastre em si.

36

passei o dia longe de mim
porque se me aproximasse
me aproximaria de ti
e o combinado é mantermos distância

Aonde é esse aqui?

Veja o céu escuro que entra pela janela, as três estrelas, as Marias, continuam no mesmo lugar. Agora olhe no espelho, repare bem nas suas quatro pintas do lado esquerdo, abaixo do pescoço, formando um retângulo imaginário. Elas também continuam no mesmo lugar, esse nosso lugar onde eu permaneço mesmo depois de pegar três aviões para longe de você. Estou deitada sozinha no chão do quarto e nada alivia o calor infernal e o medo de não conseguir me faz suar ainda mais. Quero voltar para minha zona de conforto, quero desaparecer e me retirar em solidão, mas preciso te puxar para perto de mim, te resgatar dessa poluição que embaça os olhos e me resgatar do ciclo vicioso dos amores falidos. Preciso tentar como nunca tentei, amar em liberdade, suportar cada espinho enfiado na sola dos meus pés como se não doesse ao pisar no chão. 

Ana diz que não quer mais ouvir as mesmas histórias. Digo que também estou exausta de só mudar as personagens e que estou disposta a fazer o que for por um amor que dure e exista um pouco mais. Tenho que resistir às tentações egoístas de isolamento e fazer com que a minha vontade de tentar se torne maior do que a vontade de desistir. Mas eu só consigo pensar em tudo que nunca serei para você e no que nunca vou conseguir te dar, por isso me levanto apressada do sofá e vou até a sacada ligar para Ana. Lágrimas nos olhos, eu não sou capaz, Ana. Eu não consigo perceber a distância entre mim e ela sem que isso me corte por dentro, eu não sou tão reflexiva e tão independente assim. Sinto vontade de deitar no colo dela o tempo inteiro e pedir me protege, me protege de mim, me protege do mundo porque eu acabei de fazer vinte anos e me sinto tão frágil, tão vulnerável a tudo por ter escolhido viver assim, em amor. Su por tar, Ana, eu não consigo suportar, por mais que a vida exija isso o tempo inteiro. Ana responde com uma frase - é preciso ter estômago. Certa vez ouvi dizer que o estômago sente mais do que o coração. Me recomponho e desligo o telefone, você me observa da porta, nem imagina o que se passa. Então a gente se deita pela última vez na cama onde te senti de verdade pela primeira vez. Mas agora é diferente, você está tão longe. Mesmo assim te abraço forte, numa tentativa de absorver todos os seus medos e me fazer realmente presente em você. Choro pela segunda vez no dia, a terceira viria na hora de voltar pra casa sozinha. 

Agora você bebe sua cerveja e flerta com outras mulheres, algumas mais bonitas do que eu, mais seguras. Mas acredite, nenhuma delas tem tanta verdade, tanta entrega, tanta poesia e tanta pureza também, pois a entrega só é verdadeira se for total e pura, como chego a você. No momento em que te pedi permissão para declamar um poema depois do sexo, naquele exato momento gostaria de ter tido coragem para declamar o primeiro. Queria ter te dito, nua, sorrindo, que esse sorriso a que chamam de boca, é antes um chafariz, uma coisa louca, sou amativa antes de tudo, embora o mundo me condene - Ana Cristina César, minha preferida, outra Ana na minha vida. O sorriso é tão pesado quanto o choro, há sempre tanta coisa, e às vezes apenas uma paz silenciosa que provavelmente eu sentiria depois de te olhar de novo. Sua silhueta iluminada pela luz da lua que entrava pela janela e eu vendo eternidade em cada detalhe do seu corpo. Suas pintas me trazendo de volta à realidade. Com o corpo tão longe te espero, espero que cada dia desse mês passe voando e dentro do meu coração há uma espécie de certeza que chega a assustar. Eu não posso te agarrar com as mãos, não posso te abraçar forte nem dizer pra você senta aí que eu tô chegando. Como sempre, não me resta escolha senão escrever, e dormir quando a saudade for insuportável e me preparar para o que virá, sua presença ou ausência. Porque se você ficar eu juro que vou ser alguém na sua vida, mais do que alguém bom, mais do que ternura e gentileza, serei também dor porque serei verdade. E acima de tudo serei amor, o seu amor.