VONTADE

de te encontrar por aí.



Escrever para ti exige que eu entre em outra dimensão. E é por isso que tenho evitado tanto. Sou covarde. Tenho medo de que a vontade de ficar por lá seja tamanha que depois eu não consiga mais voltar à realidade. Medo de que a saudade me leve a cometer um crime passional. De que minhas asas sejam insuficientes para me trazerem de volta ao chão. No fim, eu fui tão pouco, tão aquém do que tu merecias. De mim, da vida, do amor. Tu foste minha segurança, a única. E eu só te dei incertezas. Apesar de nunca ter dúvidas de que serias a companhia perfeita para o resto dos meus dias, incerteza foi tudo que levaste de mim. Talvez um dia tu me perdoes, quando perceberes quão equivocados são teus juízos. Quando olhares verdadeiramente na janela de minh'alma e enxergares nada mais que teu próprio rosto. Ou quando displicentemente passares por um bar qualquer e ouvires teu nome entoado em versos por minha voz. É sentimento demais e recurso linguístico de menos. Mas, é importante que tu saibas que se hoje eu tivesse direito a um pedido, não hesitaria em dizer que tudo que eu mais queria resume-se à tua permanência naquela cama. Te queria naquele edredom comigo até que o calor do meu corpo te fizesse derreter. Porque na verdade eu nunca te deixei sair daquele jeito, de repente, deixando esse vazio, essa peça a menos no meu quebra-cabeças. Porque na verdade eu nunca te deixei ir.
Algumas pessoas surgem na nossa vida para que possamos fechar ciclos, outras aparecem simplesmente para roubar todos os pontos finais.

reflexos&reflexões

Deita. Relaxa o corpo. Faz aquela respiração com a barriga, dos recém-nascidos. Tem que haver algo positivo nisso tudo. Inventa uma lição de moral, qualquer aprendizado que diminua o peso na consciência pelo erro que você não cometeu. Analisa os fatos e finge que consegue fazer outra coisa senão sofrer. Ele disse que tinha acabado, quem imaginaria que apareceria ali, de repente? Quem diria que o idiota que fugia de você mais do que diabo da cruz, resolveria, justo naquele dia, sair do conforto dos programinhas loucos pra ir até você? Bom, pelo menos agora você já sabe que deve pensar duas vezes antes de comprar a próxima cerveja, porque nesse curto espaço de tempo sua vida pode mudar. Mas, calma. Pera aí. Lembra do que você disse, no caminho, dentro do carro, quando falávamos sobre as distrações. Você disse que ele se encaixava no termo e inclusive, que era seu favorito, dentre tantos. Por que aquele "eu te amo" então? Acho você se confundiu. No máximo deve achar ele bonitinho. Ou sentir um desejo louco por ele ser do tipo inalcançável.  Mentira. Vou ser sincera. Posso falar o que eu acho? Acho que quando você fica perto dele você esquece do resto do mundo. E quando você fala com ele é como se saísse bolhas de sabão em forma de coração dos seus poros. É isso mesmo que eu penso. E duvido que vá discordar de mim. Calma. Respira. Inspira, sobe a barriga. Expira, desce a barriga. Só a barriga, nada de peito. Respiração com o peito é a respiração do medo, é por isso que todos respiram com o peito. Porque morrem de medo de tudo. Covardes, não passam de um bando de covardes. Ele é um covarde, devo dizer. Desde o início disse que tinha medo do amor. Aquelas fugas, que seriam além de reles demonstrações de covardia? Se não fosse por isso seria por qualquer outra coisa. Você nunca aceitaria as drogas, e as noitadas. E ele nunca quereria ficar em casa num dia frio, esquentando seu corpo com o corpo dele. Não aguentaria ficar parado te olhando por mais de dois minutos. E as conversas. Ah, as conversas.. Seriam sempre superficiais. São tantas discrepâncias. Não era esse o objetivo? Conquistar? Mesmo que não fosse, você já se arrastou demais. Pessoas insensíveis não ligam para frases soltas, aprenda. Ele não vai te dar outra chance. Quer que eu desenhe? Agora levanta desse chão, mulher. E aproveita pra levantar a cabeça. Olhar pra cima, pros lados, pro mundo que te cerca. O amor a gente deixa pra depois. Para quando você quiser matar a sede de dor. Esquece o masoquismo por uns dias. Esquece ele por uns dias. E principalmente, esquece daquele "eu te amo". E do quanto foi sincero.

A regra hostil dos amores a mais, dos amores a menos

Sinceramente, eu não queria escrever este texto. Fico escutanto o Renato Russo, distante, cantando " quero ter alguém com quem conversar, alguém que depois não use o que eu disse contra mim " e é assombroso quando algo martela na sua cabeça dizendo que o que você está fazendo é errado. Porém não me resta escolha, é meu único argumento, não tivemos uma história, nós nunca tivemos nada. E escrever é a solução, é a minha forma de acelerar a partida dos amores mal resolvidos. Caso tenha alguma outra sugestão para a essência deste monólogo, por favor me comunique que imediatamente farei a substituição, mas enquanto você não aparece, permita-me continuar. Você dizia que me achava bonita, que as diferenças não importavam tanto em casos amorosos, que nem sempre as pessoas sabem as respostas de imediato, e que eu não era só mais uma. Você me ligava no meio da noite e quase me agredia quando eu falava dos outros, você me fazia sentir especial - a exceção - quando mandava uma mensagem de madrugada dizendo que se importava comigo e que não ficaria bem se não soubesse que eu também estava. E foi assim, em meio a a tantos detalhes (malditos detalhes), em meio a tantas provas sutis, que eu fechei os olhos para a verdade. E a verdade é que eu nunca fui exceção porra nenhuma, eu era só mais uma das suas paixonites. Vai ver suas mãos tremiam daquele jeito perto de qualquer um que te quisesse tanto quanto eu. Vai ver eu fui só um alguém a menos. Esse pode ser o começo do fim, mas eu prefiro acreditar que não é tarde, e sim cedo demais. Acreditar que um dia, um "eu te amo" no pé do ouvido vai descomplicar tudo o que te aflige, e que meu beijo vai ser capaz de simplificar toda a sua vida em um só momento. Eu te amo, e não tenho medo de dizer isso. Amores nunca são em vão, gracinha.

A parte que falta

"Quando você saiu eu ainda fiquei lá. Sentada no banco, com os dois pés plantados no chão. Assim, já preparados para quando eu fosse me levantar. Fiquei esperando alguma coisa acontecer, alguma coisa externa que me tirasse de lá. Quase acenei desesperada pra você voltasse. Procurei nos bolsos alguma coisa pra te devolver também -  as chaves, um chiclete, uma bala. Te ligar e dizer 'volta, que eu esqueci de te entregar uma coisa'. Fiquei lá sentada. Te esperando. Quem sabe você não entrasse no carro e se lembrasse de que não tinha me beijado. E assim voltaria. (...)"