do ofício

Vieram me perguntar se meus escritos são para você
Respondi que sim
Mas é não
Escrevo para dentro
Alívio egoísta
Esvaziamento narcisista
Compartilhamento da solidão
Escrevo para que sofram comigo a tragédia que me veste
E as vísceras, os ossos, os músculos, o coração
E a alma que não há em mim
Trata-se de um diálogo
Com o outro lado da tela
Você é apenas meu interlocutor preferido
Para quem eu me doei
Para quem eu me expus
Você é o verso que eu sempre cantei
Por isso te digo, por isso te escrevo,

por isso te amo.

para o meu doce amor

Esse frio me deixa tão sentimental, amor. Lembro de tu fingindo que era um urso polar pra me ver sorrindo como uma criança de quatro anos. Tiro da estante todos os livros que me fazem lembrar de ti e me surpreendo ao saber de cor cada frase que tu gostava. Eu sei a hora em que tu me disse cada uma delas, e sei também qual  está na primeira, segunda ou vigésima carta. Atuar demais tem me feito desaparecer. Hoje minhas sobrancelhas ficaram vermelhas, mas ninguém sabe que elas só ficam assim quando lágrimas caem. Ninguém além de ti seria tão detalhista para reparar tal coisa. Tu doía minhas dores, e sorria meus sorrisos mais que eu. Tu me mostrou minhas manias, e me fez acreditar que havia poesia em cada uma delas. Porque tu achava bonito até a forma como eu mudava o tom da minha voz de acordo com a necessidade de amor do momento, como eu entortava a boca às vezes dizendo que era charme, e o drama que eu fazia quando sentia fome. Eu gostava de ser exigente por que sabia que tu sempre ia me mimar. E com o tempo, de tanta admiração da tua parte, passei a me observar mais e procurar nos meus olhos tudo aquilo que tu via. Contigo eu me conheci. E agora estou na iminência de cometer uma loucura. Mas me perdoe se não passar disso.

conto de fadas

Tarde doce, mês qualquer. Um pássaro que não sabia voar, um boneco de madeira até então sem vida. O destino com uma parcela de culpa ao promover o encontro dos dois, e o mundo os culpando de tudo mesmo assim. O primeiro aprendeu não só a voar para além do infinito, mas também a renascer das cinzas, tornando-se assim o próximo pássaro fênix. E ao boneco deu um coração - coração poderoso, que pulsava por muitos - para que ele pudesse saber como é viver. Mutuamente e involuntariamente experimentaram juntos a sensação de amar. Logo veio a água, tentando apagar o fogo que arde sem se ver. E então dispersaram-se um do outro, cada um com uma pequena chama acesa dentro de si. Já não anseiam por torná-la grande, pois sabem que o reencontro se aproxima, mesmo que em outra vida. E sabem também que quando se unirem de novo, haverá uma fogueira tão poderosa capaz de consumir tudo. Quem dirá quanto falta para esse dia, se o tempo pode não parar ou pode não passar de uma ilusão? É inútil lutar contra certas coisas, o homem ainda há de entender que o material nunca poderá deter o sublime. E, convenhamos, há algo mais sublime que o amor?

divina tragédia humana

Estar aqui e agora, mesmo sendo posse de outro tempo, outro mundo. Como quem sabe que nunca mais será dois, só metade. Como quem sabe que pessoas não passam de palhaços de um circo sem futuro, e ainda assim insiste em levá-las a sério, na esperança de que, quem sabe um dia, alguma resolva mudar de ofício e queira ser nada, ao lado de alguém. Eu faço música com o barulho da minha respiração mesclado ao som dos passos de quem vira a esquina sem olhar para quem fica. Sem olhar para mim. Machuco por querer, para me sentir mais humana, quando arranco pedaços da alma num pedido de perdão. Só deixo entrar o que vem de dentro. É por isso que estou vazia. Toda oferta vem de fora, ninguém quer se doar. Não quero a casca do seu ovo, porque quando ela se quebrar nem mesmo meu sangue será capaz de juntar novamente os pedaços. Viver dói. Viver é trágico. Eu sou tragédia. Amor não é o seu medo de cair do topo da montanha. É o percurso até chegar lá. E a disposição de deixar a primeira pedra para trás.

.. a primeira pedra para trás

"♥"

você quer ouvir o que? você quer ouvir dos planos que eu fiz pra gente?
da droga que eu queria que inventassem pra eu nunca dormir quando você tá por perto?
das viagens que eu planejei fazer com você?
do nome dos moleques?
você quer ouvir os meus planos mais idiotas pra te fazer sorrir?
do amor que eu sinto e de quão isso me torna fraca?
você quer ouvir talvez sobre meu coração que se comporta como uma criança doente cheia de vontades quando seu nome é pronunciado na televisão, no rádio ou numa roda de pessoas?
que eu morreria por você?

o que você quer ouvir?
Ontem eu senti saudade. Quer dizer, ontem eu quis, de verdade, mais do que qualquer outro dia, te dar um abraço gostoso e te dizer o quão você é linda. Eu não quero que você pense que foi só ontem, na verdade é uma constante. Mas tem dias que dói tanto que eu tenho saudade dos detalhes mais inocentes, como segurar na sua mão.
Você só me dá o que eu não quero, o que eu não preciso. E mesmo assim, eu preciso de você.

metaforizando

Vou me mudar para o litoral.
Não quero saber dos riscos de tsunami.
Dormir sentindo a maré.
Acordar com o cheiro da brisa.
O toque da areia em mim.
O sal que faz arder.
O calor do sol.
Ondas movimentando compassadamente.
E o descompasso se fazendo presente em mim.

você é meu mar.

um presente

Eu sei que já faz muito tempo. Que as cartas se perderam para sempre. Que as músicas não tocam mais e que tudo, o meu sorriso, aqueles sonhos, a sua voz, tudo virou segredo. Assunto proibido. Eu não te penso. Não sinto falta daquele silêncio que só era confortável do seu lado e muito menos daquela nossa ligação telepática de conversar em pensamento. É tão difícil viver. Pesa tanto. Eu procuro seus detalhes em outros olhares e não há nada pior do que essa frustração de saber (e saber não ajuda) que nunca mais vou sentir alguém dessa forma. Não é desesperador? É procura em vão. Nada preenche. Ninguém toca tão fundo. É sempre eu pela metade. É essa vida de superfícies. De sentimentos rasos. De despedidas constantes. Que só servem pra me lembrar o quanto você é insubstituível. O quanto eu so me sinto viva e real do teu lado. O quanto todo mundo é pouco e sem graça perto de você. Me explica como é possivel doer por dois e sentir em dobro. Porque eu não te espero, te esperando. Porque lembrar dói e mesmo assim eu escolho a dor a te esquecer. Porque de noite tudo fica maior e parece insuportável. Porque às vezes eu estou bem e do nada recebo um golpe mostrando o quanto você ainda vive em mim. Mas mesmo assim eu não te ligo. Eu não digo o seu nome em voz alta. Eu não te penso. Não te sinto. E como e difícil te negar, dessa forma. Mas e questão de sobrevivência, entende? Você virou o meu maior segredo.

Não escrevi esse texto, mas é meu, pois foi um presente da minha queridíssima amiga Ana Luiza. Baseado em relatos históricos-sentimentais que descarrego nela todos os dias. Baseado no meu olhar, em nada, ou no amor. Seja como for - obrigada, Ana, por falar por mim. ♥
E nessa brincadeira de inventar paixões, me tornei discípula devota do desassossego.

Depois que você foi embora

Depois que você foi embora eu tive que aprender a lidar com borboletas. Parei de beber tequila. Me envolvi com coisas piores e acabei com meus pulmões. Não consegui mais andar na rua sem prestar minuciosa atenção nas placas dos carros. Passei por fases antagônicas - comer demais pra suprir a falta de amor, e parar de comer por me sentir tão incapaz de suprir qualquer falta. Quis provar todos os beijos possíveis até perceber que seriam sempre vazios demais, até perceber que estética nenhuma me deixaria tão sem ar como quando seus olhos me fitavam, do outro lado da rua, e eu ansiava por sentir logo o seu cheiro, seu abraço, seu corpo em mim. Depois que você foi embora eu tive que virar gente grande, começar a me cuidar, me defender sozinha. E aprendi a me defender de tudo, menos de mim mesma. Tentei acreditar com toda força que você não passava de um fantasma, que eu poderia excluir com facilidade quatrocentos e cinquenta e três dias dos meus dezessete anos de vida. Mas depois vi que não haveria nada capaz de unir as duas pontas, e no fim tudo acabaria exatamente como está, sem sentido, sem coerência, sem paz. Deus, como eu quis paz. Queimei livros, cartas, filmes, mudei móveis de lugar, e num impulso extremo mudei até de casa. Em vão, claro. Pois antes de dormir, distraída, deixei meu braço procurar seu corpo do meu lado e encontrar só um buraco no lençol, mais frio que meus pés. Só depois que você se foi, me dei conta de que minha vida se divide em três partes: antes, durante e depois. E por mais que eu tente estar posterior a tudo, ainda vivo dentro da gente, eu não desatei o nó. Ainda estou no durante. Deve ser por isso que ando assim. Tão sua, tão minha, tão de ninguém. Hoje decidi que vou parar de lutar para sair desse abismo, porque talvez eu nunca consiga. Ou talvez a saída esteja na minha cara e por vontade própria eu tenha fechado os olhos pra ela. E pra tudo que me afasta de você. Depois que você foi embora.