" Que as palavras que eu falo não sejam ouvidas como prece e nem repetidas com fervor, apenas respeitadas como a única coisa que resta a um homem inundado de sentimentos." Oswaldo Montenegro

Deus, por que é que as coisas continuam acontecendo dentro de mim? Enquanto o mundo lá fora dorme e as pessoas se movimentam inertes a si mesmas, sem reação, o coração como uma máquina, eu ando na chuva com o sapato dentro da mochila e penso a cada passo em coisas que não deveria pensar, penso em quem nunca tocarei novamente. Penso com ternura, quero que a ternura tome conta de mim e quero mostrar o quanto é bonito. Preciso compartilhar com urgência a beleza das coisas que sinto e vejo, por isso chego assim como quem bate na porta do desconhecido totalmente nu e recebe como única reação a porta batendo forte e se fechando de novo, após uma pequena abertura, após fitar rapidamente os olhos assustados que eu quereria amar. 

Energia desperdiçada com os últimos amores. Muita energia desperdiçada. Eu não caibo em nenhum deles, nenhum consegue me compreender. Na maioria das vezes sequer há vontade de compreensão, a desistência rouba a cena dos inícios. Mas mesmo quando existe vontade, falta percorrer o caminho certo, falta entender a importância das palavras nesse eu, meu. Escute o que digo, sinta meu cheiro, toque em meu corpo, olhe em meus olhos e avance uma casa a caminho da compreensão. Ou então não faça nada, esqueça a carne e apenas leia. Leia o que escrevo, leia as entrelinhas e as cartas e os livros que eu der de presente. Metade de mim é palavra.  

Amanhã o mar chorará de manhã, pegarei o primeiro avião depois que o sol nascer e a ausência de meu amor, esse amor que aprendi a sentir por Salvador, será sentida. É incrível como os sentimentos mudam a cada chegada e partida, não estou mais ansiosa, apenas a saudade de casa me faz querer sair daqui. Estou convicta de que em termos amorosos, Goiânia não me acrescentará em nada, uma vez que não há novidades e nenhuma das pessoas que passou por mim segurou meu coração dentro das próprias mãos, ainda que todas o tenham tocado. Mas os toques, esses toques amorosos, são diferentes dos toques da carne humana, onde as bactérias se juntam cada vez mais como em um corrimão de ônibus. Os toques no coração são sinônimo de força e bondade, nos calores acumulados há cada vez mais amor e mais capacidade de amar. Corações intocáveis são grandes pedras de gelo que deixam o corpo inteiro com frio.

"Porque metade de mim é abrigo
E a outra metade é cansaço"

violentar-se

eu quero que você me engula
mas antes, mastiga minha alma
crava os dentes com força na minha pele
na parte mais suja e humana de mim

me massacra, me tritura, me  degusta
me dissolve na sua saliva
e sente na língua a textura dos meus medos
o furor das minhas vontades
e o amargo da minha solidão

até que dentro de você eu me torne
essa bola indigesta que sou
e se você não me botar pra fora
não me expulsar, não me vomitar
até sentir o gosto da bile na garganta

eu fico

eu fico e estanco o sangue que jorra
do pedaço que você arrancou
eu fico e viro água com açúcar
pra tirar o gosto ruim da sua boca
toda vez que eu te beijar
e dar calma e doçura aos dias que virão

por que é que eu só consigo me lembrar das coisas boas?

por que diabos eu não me lembro de quando peguei o carro e fui atrás de você já que a saudade apertava tanto e eu precisava te ver de qualquer forma mas você me disse pra ir embora, porque estava com os amigos e não seria conveniente. e aí eu passei na porta da casa mais umas três vezes repetindo a rota e me sentindo perdida enquanto alguém de outro estado tentava me consolar. como é que eu pude me esquecer de quando te vi com outra mulher antes mesmo de selar o nosso fim e aquilo foi o maior abismo, eu quis te matar e ir junto mas apenas me escondi, me escondi em um lugar que ainda desse pra te ver porque eu queria, de uma vez por todas, te odiar, te repugnar, materializar em raiva a humilhação que você me fez passar. no fundo, a humilhação era o de menos, o coração sempre me importou mais. mas por que é que eu não me recordo de você indo embora às pressas da minha casa cheia de arrependimento por um dos melhores beijos que você tinha me dado até então. e eu queria que você ficasse na cama mas você levantou como que acordando de um sonho e impaciente me deixou lá, sozinha com meu álcool e a televisão coberta de pisca-piscas que eu coloquei pra te receber. e  eu não sei por que, mas já me esqueci de quando você me deixava falando sozinha e  de quando chegava na minha casa às três da manhã depois de desfrutar de toda sua independência noturna, você ia porque sabia que eu te receberia nos meus braços, sempre, com o maior amor do mundo. 

esse papo de que o amor não funciona na teoria não cola comigo. não cola porque sou escritora, mesmo que eu esteja longe de concretizar qualquer materialidade que me consolide como tal, sou escritora do fundo de minha alma. e eu sei que você gostava do que eu escrevia antes de me conhecer e que quando você passou a ser meu assunto principal você parou de me ler por medo, medo das injúrias, das verdades, medo do meu amor intenso e louco. mas se você quiser que eu fique por perto vai ter que aprender a suportar o peso das palavras. e ter coragem pra ser exposta assim, e se deparar com tudo que você não quer ouvir. e tem mais, eu não vou abrir mão dos detalhes, mesmo que você me diga que são desnecessários, os detalhes são a essência do texto, o que há de mais sagrado. seja razoável, meu amor, não repudie minha fala exagerada, minha impulsividade, minha incapacidade de permanecer em silêncio quase sempre. veja bem, se não fosse pela escrita você acha que eu te receberia de volta? se eu não tivesse descarregado em escritos toda a dor que você me fez passar, você acha mesmo que eu estaria assim tão leve hoje? seja grata, seja grata à toda e qualquer manifestação verbal que tira da memória as coisas ruins, que se apodera das mágoas e dos rancores. e por favor, me dê motivos para te escrever coisas bonitas, me dê motivos em forma de momentos bonitos.

porque eu me lembro como se fosse hoje do nosso primeiro encontro no banco daquela praça e você me beijando na metade da boca antes do nosso próximo encontro na mesma noite. e do nosso primeiro beijo em público, você abrindo uma exceção. e depois de quando eu disse pra você não me procurar e você me procurou, me fazendo sentir a maior alegria do mundo. e de você dançando me olhando enquanto eu trabalhava no bar daquela festa, servindo as pessoas e te observando de longe, como quem contempla a beleza e o amor em forma de gente. e a gente se abraçando na porta do hospital e o sol nascendo e a noite fria e o almoço no trabalho e a visita no trabalho e os beijos no carro, e minha mão na sua perna. e o filme no sofá e o cachorro latindo e você aparecendo de novo assim pra roubar todo meu juízo e me afastar de todas as outras pessoas que não são você e por isso não servem pra mim. mas vê se fica dessa vez, fica e me dá mais lembranças boas, fica e se eterniza aqui dentro. porque as coisas ruins são todas perdidas no tempo, mas as boas sempre deixam saudade e fazem com que eu te queira como te quero agora, pertinho de mim.

salvador, 09/12

ontem foi o dia em que fiz as pazes com salvador. chorei e pela primeira vez não senti vontade de ir embora daqui enquanto chorava, porque a tristeza estava em qualquer lugar menos na culpa que eu atribuía à cidade. tudo está e sempre esteve dentro de mim, o ódio, a gratidão, os pesadelos dos quais me livrei essa semana. e essa inquietude, essa sede e esse desgosto que tem exigido uma paciência e uma flexibilidade que francamente, não possuo. tenho sido severa e intolerante comigo, ontem senti vontade de abandonar meu corpo ao perceber que me tornei alguém que eu não queria ser, alguém de quem não sinto orgulho. tenho medo ao pensar em voltar ao mesmo lugar da mesma forma que saí, mas ainda bem que há tempo. "sempre há tempo" é o que tenho dito para viver os dias com calma e encontrar a paz. a mesma paz silenciosa que aparece depois dos furacões e se instala como se nada tivesse sido devastado. uma tempestade ainda acontece dentro de mim e eu não sei o que sobrará do que um dia fui. talvez essa tempestade dure a vida inteira, e até meu último sopro seja um furacão, mas o que desejo é a constante reconstrução e força, muita força para deixar para trás o que for necessário. às vezes é preciso apropriar-se da posição de observador, de investigador de si, e olhar para os fatos sem culpa e com frieza. se não for assim, não há quem consiga permanecer em pé sem ser derrubado pelo peso do passado. 

salvador, 03/12

"por isso, caro senhor, ame sua solidão e suporte a dor que ela lhe causa com belos lamentos. pois os que são próximos do senhor estão distantes, é o que diz, e isso mostra que o espaço começa a se ampliar à sua volta. se o próximo está longe, então o que é distante vaga entre as estrelas, na imensidão. alegre-se com seu crescimento, para o qual não pode levar ninguém junto, e seja bondoso com aqueles que ficam para trás, seja seguro e tranquilo diante deles, sem perturbá-los com as suas dúvidas e nem assustá-los com uma confiança ou alegria que eles não poderiam compreender." rainer maria rilke

me livrei da única pessoa que burlava minha solidão aqui. e agora me sinto realmente livre da beleza aparente que me cegava para o resto das coisas bonitas que existem nesse lugar. compreendo, cada vez mais, que algumas belezas não me servem, ou não devem servir, nem mesmo como enfeite. e que a arrogância é, de todas as invirtudes, a mais capaz de destruir minha admiração. tenho ainda três semanas antes de voltar para casa para restabelecer minhas forças e pela primeira vez desde que cheguei aqui, sinto que estou mergulhada em um certo equilíbrio. ainda não estabeleci uma rotina produtiva e nem creio que consiga alcançar isso até o fim, tenho dormido muito como forma de fuga e meus horários não possuem nenhuma constância, sempre chego ao fim do dia sem ter feito metade do que deveria, mas tenho tentado ser razoável e não me punir por nada, aceitando tudo como parte de um crescimento inevitável que virá como resultado de todos os acertos e fracassos. tenho pesadelo quase todas as noites, mas nem isso diminui minha sonolência. noite passada acordei chorando às quatro da manhã após sonhar com a morte de meu pai e depois de passar algumas horas me recuperando, tratei de aproveitar meus últimos minutos de sono. como se voltar até lá constituísse um ato de coragem e eu estivesse disposta e preparada para enfrentar tudo novamente. quando voltei a dormir o pesadelo continuou, como se o ato de acordar e descobrir que se tratava de um sonho também fizesse parte do enredo e a dor se tornou então parte de uma capsula na qual me escondi para suportar os últimos minutos dessa ludicidade trágica. apesar dos pesadelos, do excesso de sono e das crises, que hora ou outra acabam aparecendo, sinto-me mais equilibrada e segura. estou cansada de salvador de uma forma física e espiritual, contudo não sinto o peso em meus ombros por uma simples questão de consciência. não quero que o tempo passe mais rápido, quero apenas que tudo aconteça como deve acontecer. me apropriei de uma paciência e serenidade que retirei de um lugar fundo dentro de mim até então desconhecido, e elas tem me ajudado a viver com calma minhas perguntas e não exigir que as respostas cheguem claras, e certas e sim na mesma lentidão que tenho experimentado dia após dia, sem perceber. pois a ilusão é de que as folhas do calendário passam na velocidade do vento mas os dias tem passado, muito, muito devagar, mesmo que pareçam tão curtos perto de tudo que tenho que fazer. acontece que parei de medir o que quer que seja em qualquer proporção que venha de fora para dentro, portanto os dias tem sido infinitos para o meu coração por mais que sejam muito curtos para quaisquer afazeres. ana me indicou outra leitura fantástica, e agora, além de anaïs, tenho também a companhia de rainer maria rilke, e de sua simplicidade expressa em cada carta de "cartas ao jovem poeta". de todas as pessoas que estão longe, ana é a que mais se faz presente, me tornando forte e me dando coragem nos momentos mais inusitados. sábado passado enquanto todos em casa dormiam, fui à praia sozinha porque ela me encorajou e conheci thaise, a garçonete que conversou comigo sobre livros. disse que preferia cigarro artesanal porque matava mais sua vontade e confessou que gostava de ler depois de chegar em casa e tomar seu banho, disse que lia sobre novelas e atores e perguntou do que se tratavam o livro e a revista que eu lia. sentou-se comigo na mesa algumas vezes nos intervalos e me contou sobre como gostava de conhecer pessoas novas e me pediu pra não ir embora tão cedo porque gostava de me ver ali sentada, que eu transmitia algo bom. ao final, dei a ela dinheiro para que comprasse uma revista igual a minha e agradeci pela companhia. tenho sentido falta daquela que burlou minha solidão, mas acredito que seja melhor assim pois não me encontro em condições de entrar novamente em um abismo desconhecido que não me levará a nada. no mais, estou orgulhosa por ter chegado até aqui e sei que ainda falta muito mas já posso afirmar que irei até o fim. afirmo não com a inocência de quem supõe prever o próprio futuro, mas com a força e a fé de quem insiste no que é difícil por saber que "o fato de uma coisa ser difícil tem de ser mais um motivo para fazê-la". a facilidade não me levará a nada, como a beleza vazia que deixei para trás. é preciso percorrer um caminho para chegar ao que é verdadeiramente belo, mesmo que no fim esse caminho apenas reforce a impressão inicial. sou adepta à simplicidade do amor e da beleza, mas tenho aprendido que por mais belo que algo pareça ser, para que sua beleza se concretize realmente, é necessário ir além do encantamento inicial e inocente. meu esforço é para que este momento não me sirva apenas como enfeite e que de fato se concretize em mim como parte integrante do meu ser que tornará minha vida, cada vez mais, verdadeiramente bela.