Para ler ao som de Bethânia

Mas tudo bem, tudo está perfeitamente bem. Dividiremos corpo e sentimento de uma forma que te agrade e te faça sempre voltar. Neste instante, por exemplo, não me importa saber onde teu corpo está ou qual parte de ti a lua ilumina. Interessa-me teu pensamento, tua pulsação interna, tua prioridade. A quem dedicas tua alma agora, benzinho? A alguém que exija de ti muito menos do que eu exigi e simplesmente aceite sorrindo toda a tua dureza? Me diz, no que pensas? Descortina para mim o que o coração faz questão de esconder. Aí sim, depois que o mistério for revelado, poderemos pensar em corpo. Pensar não, porque quando for a vez do corpo não me importa o caminho da mente. Quero apenas tua nudez na minha, teus beijos, tuas mãos e tua violência. Quero tuas pernas e teus seios e entrelaçar-me, esconder-me e amar-te em silêncio enquanto me proteges sem saber. Sentir tua carne tão real, sentir tuas veias como se até teu sangue quisesse me invadir. Não me importa pensamento algum, porque chegamos a um lugar onde o corpo é na verdade todo o ser e não há nada obscuro, não há nada que não seja revelado pelo calor, pela sede, pela respiração. Sempre me vem à tona o teu abraço quente naquela noite fria e os pés gelados e nossa impotência diante do vento lá fora. Será que a vida se resumiria a isso? Menos, será que nós, eu e você, teríamos o mesmo sentido daquela noite? O frio, a impotência, o desconforto e ao mesmo tempo a cumplicidade, os corpos e os corações unidos esperando ansiosamente o amanhecer do dia.

Ir agora parece tão fácil e cômodo. Amanhã não, amanhã será diferente, quando não tivermos mais opção, os abraços finais serão como espinhos cravando a pele. Hoje escolhemos o atalho, escolhemos parar. E construímos nosso fim em meio ao caos de tantas despedidas. Difícil hoje seria ficar. Permanecer, sobreviver e encaixar nossos defeitos como nossos corpos no escuro. Eu posso ser só tua e ser mais uma ao mesmo tempo, sem tudo ou nada. Seja como tu quiseres.

E se não houver mais querer, hei de sobreviver a mais uma ausência como sempre fiz. Misturando-me à estranheza das pessoas nas ruas que agora andam com raiva, protestam, refletem cansaço. Meu cansaço será outro, será interno, intenso, sentimental. E protestarei em silêncio tua ausência e tantas outras que já me afligiram. Hei de caminhar milhas e milhas, revoltada por todos os nãos que fui obrigada a engolir em seco. E pelas despedidas que, como a morte, vieram sem aviso prévio. Será eterno meu luto de amor? Que pelo menos minha vontade e minha coragem não se percam de mim.

No som do carro, Maria Bethânia declama uma poesia e depois canta. Me sinto mais real e quero te encontrar, mas o perfume já não deve estar na pele, as olheiras anunciam o cansaço e corro o risco de não despertar teu desejo. Quero rodar a cidade te procurando e te achar e dizer enfim que tá doendo essa saudade. Volta. Volta e me beija, volta e me abraça, volta e fica até que eu parta mas não parte meu peito assim em mil.


Goiânia, junho de 2013.

De fato, sinto saudade. Principalmente de deitar no seu colo nas manhãs frias e te ouvir dizer que eu sou uma pessoa boa e mereço um grande amor, um amor foda, que suporte todos os meus mimos e me faça feliz de verdade. E das broncas carinhosas que você me dava porque eu nunca soube me valorizar. E dos cigarros antes das oito sempre repletos de poesia. Como você entendia minha urgência, Ana. Minha dor, minha vontade de viver dolorosamente e escrever a vida. E agora você está aí no seu apartamento, com sua máquina de escrever, com suas contas, seu emprego, seu fogão, seus livros prontos para serem publicados, mas nada seria suficiente se fosse a solidão. Seu homem está aí, o amor da sua vida, seu escritor. E vocês não dependem de mais nada a não ser da própria força e manter vivo o encanto é quase natural mesmo em meio ao peso do cotidiano. Vocês estão vacinados contra a razão, eu sei. As horas, o tempo, a rotina nunca serão capazes de driblar a nossa vontade de sentir e a nossa capacidade de fazê-lo. E pensando bem, talvez nós sejamos os verdadeiros heróis de nós mesmos, os sobreviventes, os fortes, porque nos recusamos a viver automaticamente e por isso o amor estará sempre vivo em nós.

Continuo sem talento, Ana. E ainda me falta tempo. Plena segunda-feira e eu tenho que cancelar compromissos para satisfazer o coração. Por isso é que preciso sair daqui, você sabe, ir para a Bahia, me descobrir, amar, enlouquecer pra depois ter pique pra ser capricorniana de novo.  Adulta, responsável, filha única que sabe o peso que carrega nas costas e aceita a carga por amor. Te escrevo pela saudade, pela falta que me faz teu sorriso mas principalmente por não agüentar mais essa vontade de compartilhar a minha vida com você. Digo com você porque eu não o faria com qualquer pessoa. Há algum tempo, quando paro para refletir me vem tua imagem ao fundo e sinto vontade de te ligar, perguntar o que você acha de tudo. Quando a vontade é menos imediata, chego a planejar uma carta inteira, cada vírgula, no banho ou antes de dormir, mas me tornei especialista em deixar passar e fecho os olhos, desligo o chuveiro e permaneço gritando apenas por dentro.

Estou com alguém. Estou com alguém mesmo que isso seja muito pesado para o que vivo agora. Não faz muito tempo, mas já dormimos juntos algumas vezes e acho que finalmente encontrei um cobertor humano, que deita inteiro na minha cama e quando me abraça no meio da noite parece veludo. Quando o dia amanhece ele não me dá metade do que eu preciso e nossos encontros quase nunca passam de trinta minutos. Ficava em mim sempre uma sensação de vazio, de incompletude, que se transformava em raiva e depois intolerância, me obrigando a desistir. E eu desistia todos os dias mas nunca tinha coragem de verbalizar, cheguei a ensaiar algumas vezes mas disfarcei e mudei o rumo da conversa pois o apego era maior. E agora, Ana, acho que eu descobri um novo sentido em tudo. Há dois dias não penso em desistir e talvez agora eu esteja bem. Mesmo com toda ausência e com todo buraco que as horas e o silêncio cavam em mim, começo a pensar que a felicidade plena não é meu objetivo final. Vejo você dizer sobre o quanto está feliz ao lado do André e sobre sermos cegos ao pensarmos que a tristeza é bonita mas eu não quero ser plenamente feliz agora, Ana. E eu sei que você com toda sua sabedoria é quem sabe a única pessoa capaz de me entender. Eu quero essa falta, eu quero essa incompletude. Eu quero meu guerreiro chegando da guerra e eu tirando sua armadura e acariciando a pele e cuidando das feridas. Eu estou com alguém que não me faz feliz mas eu estou onde eu quero estar. Isso pareceria contraditório para qualquer pessoa do mundo, por essas e outras razões escrevo a você. Minha Ana, minha amiga. Tenho exercitado minha tolerância e até mesmo minha solidão. Eu estou com alguém que não me faz feliz e isso é libertador porque se a felicidade não partir de mim, ainda assim estarei confortável na minha tristeza. É disso que a gente vive, não é? Não é essa a nossa matéria prima, a tinta das nossas palavras?

Ainda não aprendi a tirar a faca do peito e nem a revisar textos. A urgência ainda fala mais alto. Resta-me pedir que exercite sua paciência e me perdoe pelos erros. Eu te amo.

Da sua,

Babi.