Mariposa

Há uma borboleta negra morando no meu quarto.
Confesso que não notei quando chegou, nem como.
Se foi rápido ou devagar, de repente ou com cuidado. 
Se entrou pela sacada da frente ou do fundo,
pela janela do banheiro ou pela porta que abri sem perceber.

Senti medo.
Não gosto de outras borboletas senão das que passeiam
coloridas pelos jardins, felizes. Inofensivas.
Borboletas negras me assustam de tal modo
que o afastamento é imediato.

Fiquei, apesar do medo.
Encará-la de frente, mesmo sem olhar nos olhos
era o maior desafio da minha existência até então.
Enfrentei meu medo da forma mais covarde possível,
quase como uma criança que só coloca os olhos para fora do edredom
e espera encontrar o monstro no escuro indecifrável.

Ignorei todas as vezes que um borrão negro
de relance me invadiu os olhos.
Até que o tempo e a própria borboleta me mostraram
que asas negras também são asas
que asas negras também alçam voo.

Hoje acordei com a impressão de normalidade. 
De paredes novamente limpas donas de um de branco perfeito.
Mas conforme o dia foi passando, andando pelo quarto percebi, com espanto, 
que ainda estava ali, escondida num canto qualquer.
Encarei-a, dessa vez com firmeza e fixamente. 
Não mais com olhos de infância e medo.

Deixei que me invadisse como invadiu meu quarto 
e disse baixinho - fique o quanto quiser.

A borboleta negra é minha solidão.

"A vida é agora, aprende. Ainda outra vez tocarão teus seios, lemberão teus pelos, provarão teus gostos. E outra mais, outra vez ainda. Até esqueceres faces, nomes, cheiros. Serão tantos. O pó ainda se acumula todos os dias sobre as emoções". Caio F.

Pedaço de mim,

Tenho jogado minha saudade em um poço fundo, sujo, onde me afogo todas as noites. E prefiro me afogar do que continuar nadando incessantemente em direção ao barco furado que é o teu amor. Inexistente. Primeiro me surpreendes, um abraço no meio do aeroporto, uma hora de voo e eu pude finalmente me sentir segura de novo e sentir o firmamento mesmo diante de tamanha novidade. Depois, outras surpresas, me tiras o chão uma, duas, três vezes. O silêncio é uma forma de tomar distância. Adotar a monotonia é escolher a posição de observador que prefere evitar qualquer tipo de envolvimento com o objeto admirado. O que não significa que a escolha se concretizará na prática de forma eficiente. No meu caso, passei longe do planejado e me envolvi mais, muito mais do que o curto tempo e a longa distância permitiram. Há euforia na minha tristeza e minha alegria é calma como uma canção de ninar. Enquanto o amor exigir pré-requisitos, escadas infinitas, provas concretas, eu prefiro não amar. Enquanto o amor for inalcançável, eu prefiro não alcançá-lo. O meu amor vive aqui, dentro de mim, puro, latente, real, acessível. Existindo e dando forma à toda minha coragem de ser alguém. Coragem de ser de alguém. Somos como uma madrugada de segunda-feira, deserta. Eu correndo, mudando caminhos, furando sinais e te esperando na rua vazia, mesmo que na contramão. Nada. Estou de novo na minha cama, cheirando a amaciante, o lençol branco impecável anunciando que tudo continua como eu deixei. Penso em te ligar para dizer que cheguei bem, mas permaneço inerte até que o sono chegue e faça de mim um novo dia. Várias distâncias te afastam de mim. Se és mesmo pedaço do que sou, me deixa te amputar ou aceita a beleza do meu excesso. Estendo bandeira branca por dez segundos de paz e me canso, me calo. Desisto violentamente de tudo que não há entre nós. E dessa situação fantasiosa, separada por milhas invisíveis que você criou, eu não quero e não espero mais nada. Somos pequenos demais para sobreviver assim.

O agora nunca será. 

Antônio de Albuquerque, 15º andar.

16:37
Estou com a faca cravada no peito, proibida de descrever a sensação.
Digo, por teimosia, que me sinto bem aqui.
Nessa cidade de ruas fechadas que me sufocam,
morros urbanos que me elevam e sexo futuro ao qual me entregarei
e não receberei nada em troca além do prazer.
Linda, ela me fala sobre tudo
e me limito ao clichê de observar as curvas dos lábios.
Meus olhos decolam com sua língua ao céu do amor passageiro e intenso.
Seria pecado pedir para o tempo parar
e adiar a aterrissagem até o último momento?


3:59
Presente de grego.
Como se meu guia tivesse de repente me abandonado
e me entregue às arvores dessa cidade estranha.
Senti vontade de voltar para casa
ou me esconder entre os galhos da árvore à minha frente


9:13
Depois da tentativa frustrada de prazer eu quis chorar
para potencializar ainda mais o drama
Entretanto, o álcool não foi suficiente
e além da efemeridade dos fatos,
não havia nada exageradamente triste nisso tudo.
Hoje eu aprendi que o prazer é psicológico,
o que é quase um abismo para quem já deixa o coração mandar demais.
A pele era para mim uma fuga até então.

Linda, ela dorme ao meu lado.
Vou dar-lhe um beijo de bom dia e pedir o café da manhã.

Tenho ainda a faca cravada no peito.


17:03
Como uma flor aberta que vai murchando,
se fechando por falta de água.
Ofuscada, queimada do sol, grito:
eu tenho sede.


18:48
Cinco anos de terapia não lhe darão coragem
para viver de verdade seja lá o que for.
Eu lhe darei coragem, talvez não nessa viagem
Mas um dia pedirei passagem em nome do amor.
Quero ver me negar abertura, dou afago, dou ternura,
brinco com sua loucura e que mais precisar.

E minha rima pobre é eficiente feito cachaça barata,
ela não me diria não.


20:22
Diz que não tem culpa mas o quarto inteiro cheira alecrim.
O quarto inteiro é um pedido de perdão pela metade.
A cama arrumada, o cinzeiro limpo.
A outra metade é ela fumando, na janela, com a blusa aberta.
"Eu te perdoo, amor. Você ainda não sabe, mas eu te perdoo
por fazer eu me sentir uma qualquer e diminuir a nada
a distância que percorri até aqui. Te perdoo pela falta de atenção
e por não me beijar em público. E por não cumprir a promessa
de me abraçar enquanto eu dormia."


03:54
Essa noite não tive paz e nem me refugiei na solidão.
Agora eu sei que abrir a boca para um beijo pode ser entrar em um avião.
A diferença é que quando os olhos se abrem não há abismo,
há a face vulgar do desassossego, que de tão intensa acaba causando paz.


11:00
Não vou acordá-la,
velar seu sono é melhor do que explorar qualquer canto desta cidade.
Ela é o canto mais lindo desta cidade.
Contemplo seu sono com ar de turista deslumbrado,
coloco minha mão sobre sua barriga, e espero
ansiosamente pelo seu mau humor matinal.
Até isso tem me feito sorrir.


22:05
A cidade grande vai diminuindo de tamanho
e feito criança observo pela janela.
Me transformo em uma simples nuvem negra
acima das pequenas luzes onde ela se esconde.
As luzes se apagam, me perco na escuridão,
só o barulho das turbinas anuncia minha volta para casa.
E nas asas do pássaro gigante, feixes de luz piscam
mais rápido do que meu coração,
que sinto, vai morrendo cada quilômetro percorrido.


22:25
Há uma tempestade fora da minha rota.
36 mil pés me separam do chão.
27 graus goianienses me aguardam daqui meia hora.
Vai fazer frio dentro de mim.

A faca nunca sairá do meu peito demente.
Continuarei a contar (sobre) as gotas de sangue que pingam
e sujam de vida o papel.

Ó METADE AFASTADA DE MIM

Começo o ano com coragem
dando liberdade ao coração.
Te sigo mesmo sabendo que és armadilha
e me consumirás em pouco tempo.

Tu e essa distância me transformarão em carne e osso.
Os astros me iludem dizendo que sou de ferro,
coloco janeiro nas mãos como filha mimada que sou,
filha do mundo. 

Detalhes, eu preciso falar sobre os detalhes...

Vais acender o cigarro
e vais fumar na janela observando as pessoas lá fora.
E eu vou continuar na cama
esperando que depois tu queiras voltar para os meus braços.

De braços abertos, na cama, vou te esperar.
e torcer para que em uma noite não tenhas enjoado de mim,
e estejas disposta a esquecer os que passam lá fora
e olhar de novo para dentro de nós.

E se voltares e me fizer de travesseiro,
eu apoio tua cabeça e tudo mais que lhe pesar.