Antônio de Albuquerque, 15º andar.

16:37
Estou com a faca cravada no peito, proibida de descrever a sensação.
Digo, por teimosia, que me sinto bem aqui.
Nessa cidade de ruas fechadas que me sufocam,
morros urbanos que me elevam e sexo futuro ao qual me entregarei
e não receberei nada em troca além do prazer.
Linda, ela me fala sobre tudo
e me limito ao clichê de observar as curvas dos lábios.
Meus olhos decolam com sua língua ao céu do amor passageiro e intenso.
Seria pecado pedir para o tempo parar
e adiar a aterrissagem até o último momento?


3:59
Presente de grego.
Como se meu guia tivesse de repente me abandonado
e me entregue às arvores dessa cidade estranha.
Senti vontade de voltar para casa
ou me esconder entre os galhos da árvore à minha frente


9:13
Depois da tentativa frustrada de prazer eu quis chorar
para potencializar ainda mais o drama
Entretanto, o álcool não foi suficiente
e além da efemeridade dos fatos,
não havia nada exageradamente triste nisso tudo.
Hoje eu aprendi que o prazer é psicológico,
o que é quase um abismo para quem já deixa o coração mandar demais.
A pele era para mim uma fuga até então.

Linda, ela dorme ao meu lado.
Vou dar-lhe um beijo de bom dia e pedir o café da manhã.

Tenho ainda a faca cravada no peito.


17:03
Como uma flor aberta que vai murchando,
se fechando por falta de água.
Ofuscada, queimada do sol, grito:
eu tenho sede.


18:48
Cinco anos de terapia não lhe darão coragem
para viver de verdade seja lá o que for.
Eu lhe darei coragem, talvez não nessa viagem
Mas um dia pedirei passagem em nome do amor.
Quero ver me negar abertura, dou afago, dou ternura,
brinco com sua loucura e que mais precisar.

E minha rima pobre é eficiente feito cachaça barata,
ela não me diria não.


20:22
Diz que não tem culpa mas o quarto inteiro cheira alecrim.
O quarto inteiro é um pedido de perdão pela metade.
A cama arrumada, o cinzeiro limpo.
A outra metade é ela fumando, na janela, com a blusa aberta.
"Eu te perdoo, amor. Você ainda não sabe, mas eu te perdoo
por fazer eu me sentir uma qualquer e diminuir a nada
a distância que percorri até aqui. Te perdoo pela falta de atenção
e por não me beijar em público. E por não cumprir a promessa
de me abraçar enquanto eu dormia."


03:54
Essa noite não tive paz e nem me refugiei na solidão.
Agora eu sei que abrir a boca para um beijo pode ser entrar em um avião.
A diferença é que quando os olhos se abrem não há abismo,
há a face vulgar do desassossego, que de tão intensa acaba causando paz.


11:00
Não vou acordá-la,
velar seu sono é melhor do que explorar qualquer canto desta cidade.
Ela é o canto mais lindo desta cidade.
Contemplo seu sono com ar de turista deslumbrado,
coloco minha mão sobre sua barriga, e espero
ansiosamente pelo seu mau humor matinal.
Até isso tem me feito sorrir.


22:05
A cidade grande vai diminuindo de tamanho
e feito criança observo pela janela.
Me transformo em uma simples nuvem negra
acima das pequenas luzes onde ela se esconde.
As luzes se apagam, me perco na escuridão,
só o barulho das turbinas anuncia minha volta para casa.
E nas asas do pássaro gigante, feixes de luz piscam
mais rápido do que meu coração,
que sinto, vai morrendo cada quilômetro percorrido.


22:25
Há uma tempestade fora da minha rota.
36 mil pés me separam do chão.
27 graus goianienses me aguardam daqui meia hora.
Vai fazer frio dentro de mim.

A faca nunca sairá do meu peito demente.
Continuarei a contar (sobre) as gotas de sangue que pingam
e sujam de vida o papel.