salvador, 25/11

me tira daqui, eu quero fugir
te pego em dez minutos

entra no carro com cheiro de ternura e "eu nunca vou te trazer de volta, e você sabe que eu vou voltar então não chora agora, me dá sua mão, toma aqui um cigarro que as coisas hão de melhorar a cada esquina que a gente dobra pra longe daqui". me chama. me chama de amor desse jeito rendido que derrete e repete, repete devagar no meu ouvido as duas sílabas. a-mor. as duas sílabas mais filhas da puta do universo que fodem com o coração do mundo inteiro inclusive com o nosso. você merece todas as cartas de amor do mundo. se o amor fosse questão de merecimento. e talvez até seja, mas um merecimento tão subjetivo que foge à nossa compreensão, envolvendo alma, aura, vidas passadas e qualquer coisa além do nosso pequeno alcance humano e terreno. porém, prefiro acreditar que o amor não tem nada a ver com merecimento, por isso não me pergunte por que foi que eu demorei tanto pra te escrever, depois de tudo que você me deu e me proporcionou. Ingratidão, com I maiúsculo, você deve pensar. mas não, ou tanto faz, não posso provar o contrário assim como não posso provar ser o contrário do que dizem sobre mim. apropriando-me da fala de caio, a única coisa que eu posso fazer é escrever  e acrescento, sinceramente, abrir meu coração. sendo assim ou não, para além da gratidão, eu não poderia entrar no mar de mãos dadas com alguém. isso impediria o afogamento, a queda, o aprendizado. quando voltei de casa e me encontrei com o mar pela segunda vez o dia estava quase indo embora e as ondas chegavam violentas subindo cada vez mais a maré. eu estava sozinha e sentia uma pontada de medo cada vez que meus pés se molhavam acidentalmente. mas entrei. e caí e me afoguei. três vezes. depois saí andando com a areia no corpo feito cicatriz, me sentindo a mulher mais forte do mundo pelo simples fato de ter me levantado das quedas e ter retomado o fôlego depois de me faltar ar. você me entende? será que você pode ao menos tentar entender que quis fugir correndo de tudo que me tornasse mais forte, de qualquer coisa que tornasse mais fácil o que estou vivendo agora? eu quis chegar aqui com o coração nu e por isso tive que perder você, e me perder de você e nos perder assim covardemente na distância que eu diminui a nada, poucos minutos antes de embarcar. porque eu sabia que se não fosse difícil tudo seria em vão e eu continuaria com a mesma inocência de querer controlar e prever as coisas antes do fim. além do cheiro, guardei o sorriso. me lembro claramente de você sorrindo, encostada na parede, enquanto eu me alternava entre te beijar e me afastar pra te ver sorrir de qualquer coisa banal que alguém gritava da cozinha. como era bom deitar no seu colo e como você foi tola por ir embora daquele jeito antes que o dia amanhecesse, se você me conhecesse mais, se tivéssemos tido mais tempo, você não choraria aquela noite. o próprio ato de dormir com alguém, de encostar a cabeça no peito, de sentir a respiração e a pele encostando e esquentando já é absoluto por si só. sublime e completo, compreende? se não, feche os olhos e tente se lembrar de toda a simplicidade que há em um abraço de amor. e deitar no seu colo era sempre aqui e agora, era deixar todo o resto fora do alcance dos seus braços, e de mim. agora diz, olha pra mim e diz se não foi preciso coragem pra deixar pra trás o conforto do seu colo e de todo o resto. meu silêncio não reflete nada mais do que uma necessidade dura de suportar, mas agora eu tô aqui te escrevendo pra dizer que eu penso em tudo. em tudo que eu deixei pra trás. geralmente quando pego um ônibus lotado às sete da manhã ou quando subo sozinha as ladeiras do caminho de casa. e aí eu me concentro na respiração ou olho pela janela toda a sujeira dessa cidade e os edifícios antigos enquanto sinto, sinto que me torno forte a cada gota de suor que cai no chão. rogo em pensamento para que meus próximos caminhos não exijam de mim tanta solidão e agradeço, ao mesmo tempo, por estar na bahia, onde por mais sozinho que você esteja, será sempre bem acolhido e receberá sorrisos de desconhecidos na rua. espero que ainda nos encontremos para falar e ouvir sobre a vida e depois um abraço. de despedida ou não. creio que cartas de amor, assim como o amor, fogem de quaisquer definições, portanto não posso dizer se isso é uma carta de amor. por outro lado, acredito que tanto o amor quanto as cartas de amor exigem rendição. por isso estou aqui, rendida, assim na esperança de que talvez isso aqui vire uma carta de amor. 

e agora

"olha pra mim
não foi à toa que eu cheguei a ti
se a essas ruas sobrevivi
e nessas praias não me afoguei
foi só porque tinha algo a dizer pra você"
(helio flanders)

vai saber.

Salvador, 11/11

Não sei controlar o que escrevo. Não consigo me livrar da ternura e da compaixão que demonstro nas palavras. Olhos nos olhos e emano calma, observo com cautela os diálogos e espero a hora certa de falar, desconfiada, ajo como quem está de fora. Se preciso, fujo com frieza, desvio olhares, abraços e beijos, finjo uma segurança que não me pertence. Mas não na escrita, sou sempre doce e me esforço o tempo inteiro para não dizer tudo, para deixar que uma ponta de mistério sobreviva e dar a impressão de que ainda estou no jogo, quando na verdade já me entreguei. Minha única dureza ao escrever é o silêncio, que só aparece após a desistência. Deixar de escrever é a maior prova de que não me toca mais, não me interessa mais e definitivamente passou. De fato estou triste, de fato me sinto só, mas às vezes dou aos fatos uma grandiosidade maior para comover e receber abraços afetuosos como o que recebi hoje de manhã. Não houve cena nem fingimento algum, desci as escadas desabando por dentro, mesmo depois do abraço, mas entenda que a afetuosidade, a generosidade e sentir um corpo no meu como proteção me faz realmente forte. Só assim eu consigo continuar. Todas as paisagens do mundo são vazias se não há amor e compartilhamento. Tenho tentado compreender o que estou vivendo aqui porque sei que só através da compreensão serei capaz perceber e absorver as coisas boas e o aprendizado em seu mais alto nível. Minha vida está parada, não tenho mais que cumprir horários, enfrentar o trânsito ou me preocupar com outras pessoas. Eu sou minha única responsabilidade agora e talvez por isso minha alma esteja um turbilhão, porque não há para onde fugir, não há nada que desvie o foco. Para qualquer lugar que eu olhe, vejo apenas minha própria face. Finalmente à sós, parada no tempo e no espaço, pronta e receptiva a qualquer crescimento que seja. Tenho vivido um parto diário, um trauma por dia, são raras as noites em que não choro antes de dormir mas a consciência impede que eu me afunde em solidão. A consciência de saber que tudo é dolorido demais, porém se faz necessário porque é fruto de uma escolha, a escolha de ir além da mesmice, do comodismo, do conforto, ir além da mediocridade de ter tudo nas mãos antes mesmo de querer de verdade. Meu desejo pela evolução interna é tão grande que a vida traçou alguns caminhos por mim.  Sou grata pelo amor que me acompanha aqui, o amor que não escolhi mas que surgiu como uma estrela única em um céu negro. Um amor para o qual estou terminantemente proibida de demonstrar fragilidade e tenho que fazer com que os sentimentos soem leves até quando não o são - sempre. Que me ajuda a achar meu equilíbrio e a encarar as coisas como mulher forte que sou. Um amor que não responde todas as minhas perguntas e que não diminui o frio das minhas noites mas que está comigo do seu jeito. Jeito generoso que me abraça de manhã como quem diz "estou aqui" em um silêncio lindo e puro e mesmo assim me causa medo, me faz sair correndo do abraço temendo algo que ainda não descobri o que. Ainda acho que tudo que é verdadeiro arde, queima e fere, mas tenho aprendido a conviver com isso de forma com que a vida não seja uma tortura constante. Finalmente estou diante da vida sem tanto desespero e espero que isso diminua a velocidade dos dias, pois a horas não passam mas as folhas do calendário estão voando em uma velocidade sobre-humana. Pelas ondas, pela areia, pelas paisagens vazias eu não me importaria, confesso que estou preparada para viver longe do mar. Meu despreparo tem outra origem. Do lado esquerdo, no mesmo lugar onde brotam todos os outros sentimentos.  

um abraço para que eu me sinta em casa

não basta a novidade, a liberdade
o berimbau no braço
a pele morena

não basta a abertura, o sorriso
as caminhadas
a orla flutuando sobre meus olhos

mais do que receber, quero me dar

a quem farei declarações?
jogarei poemas ao mar?
devo enterrar na areia a vontade de me doar?

bastaria o calor humano
noites em chamas
dias molhados de saliva e suor

eu não vou me prender a lugar algum
onde não haja alguém que me faça sentir
que me aguce o sentido, que me tire o sentido
que me cause vontade de viver e de morrer

meu coração é uma âncora em mim
que não vai se afundar sozinha
que vai ficar aqui pesando, enferrujando
enquanto não houver companhia
que compense a profundeza
da permanência nesse lugar

salvador, me salva dessa solidão
ou eu pego o próximo vôo
entro em qualquer avião
me jogo na paralela
me afogo na água parada

bahia de todos os santos
responde meu pranto
me encanta de novo
me afaga em teu seio
me abriga, me dá morada

entende que hoje
é ficar ou partir
ir de encontro ou fugir
hoje é tudo ou nada

propositalmente ir além do mar

meus dedos na sua boca e eu te desenhando no escuro. me desintegrando, entregando tudo a você. mesmo sabendo que o ato de foder viria no dia seguinte quando você esquecesse meu nome e meu endereço e se levantasse da cama antes que eu acordasse do sonho. eu te procuraria pela casa feito louca sem saber se foi real. desceria as escadas e descabelada sairia na rua, te procurando, olhando na mão e contramão atrás do que me deu sentido. porque, você sabe, isso aqui sem você vira imensidão e eu prefiro me esconder e fechar os olhos. mas se você está, preciso ser o meu melhor para que você nunca deixe de me procurar quando eu decidir desaparecer. o tempo está passando, amor, o tempo está voando e até voltei a usar relógio para não me esquecer de que tudo aqui é passageiro. o coração, o relógio no pulso, o lado esquerdo do meu corpo anuncia o tempo inteiro os dias que passam. nenhuma parte de mim tem calma, mas finjo ser serenidade pra não te assustar. 

meus dedos na sua boca e eu te desenhando no escuro.

meu nariz no seu ouvido e depois a língua e a palavra, qualquer palavra indecifrável dessas que só surgem em atos sublimes de amor. meu corpo no seu, poema de métrica perfeita se encaixando, cada toque uma estrofe, um verso a cada ato de inspirar e expirar, cada vez mais alto. letra por letra e eu percorrendo você com ares de arqueólogo, como uma pesquisa etnográfica em  uma tribo desconhecida. atenta aos detalhes, curvas, cheiros, texturas. e depois que você dormisse eu ainda fumaria um cigarro escondida pensando que talvez as mudanças tenham um propósito mais sublime do que simplesmente crescer como pessoa.