estou pronta,

eu disse,
pronta para suportar
qualquer abandono.

e cá estou para mostrar que
amor, de solidão não morro,
dela não corro, nunca corri.

quantas flores já passaram por aqui
e acabaram murchas como chegaram.
eu nunca soube o que dar a elas
para que sobrevivessem bonitas,

ou talvez sejam elas que nunca,
nunca compreenderam
tudo que eu queria lhes dar.
me consumiam por inteira
e continuavam com fome.

quando caíam, secas no chão,
eu pensava, fracassei.
aí vem você e me ensina
que o único modo de não fracassar
é rejeitando as flores.

e ainda assim eu digo sim.
braços e pernas abertas,
agora que você as abriu.
porque não me importo
em ser um fracassado.

se é isso que tenho que ser
para viver de amor,
é isso que serei,
seja a flor quem for.

encoraja minha fraqueza

diz que me quer assim
demente, vulnerável
débil de amor.
a muralha
que cai à noite
e se ergue de manhã
não sou eu,
mesmo que essa
seja a sua vontade.       
eu só quero
fechar os olhos
na nossa dança
e me entregar
inebriada,
alucinada
no seu cheiro,
escondida
em seus cabelos.
se você 
me quiser assim,
esse meu eu
entregue,
coração doente,
mas cheio de amor
muito amor,
temos a vida inteira.
caso contrário,
nossos desejos 
tem dias contados.
não tenho forças
para resistir a você.
mas se necessário for
resistirei.
resistirei inteira
e sem volta
aos seus encantos.

de tudo

o que de mais precioso
a distancia me tirou
foi a possibilidade
de amar calada.

de longe,
os toques só são ditos
os beijos são falados
e o afago só existe
na e pela palavra.

se me falta inspiração,
um encontro a menos.
somos dois corpos
ainda mais afastados.

23

cê decide me deixar sozinha
e me aparece tanta companhia
gente com o próprio tempo na mão
dizendo "toma!"
como quem oferece flores
a alguém que chora

então, a vontade de te escrever não aparece
mas decido escrever esses versos
esses versos que não são por você

são pela ânsia 
de que seus olhos me vejam
para amolecer 
as veias rígidas desse teu peito vil

ponto

esses versos são para que no fim
se de nada valer esse amor
reste o valor das palavras bonitas

são versos que tocam
o que as mãos de outras nunca irão tocar

não só esses, mas todos os outros
são, sobretudo, encontros secretos
e mesmo que o dia inteiro 
tenha sido solitário e penoso
e eu não queira me encontrar com você
nem agora nem depois
de pensar tanto em desistir,
cada vez que eu escrevo "você"
me esbarro sozinha com quem não quero

aqui é o lugar onde não há como fugir
o lugar onde eu volto e cedo 
e confesso novamente minha saudade
mas se algum dia o silêncio predominar
saiba, linhas vazias são sinônimo de abandono.

11

o que entrego de mão beijada
não passa de cartão de visita

chegará o ponto em que terás 
de desvendar sozinha
com o esforço de tuas mãos
os segredos mantidos em sigilo 

ora, um homem há de ter em si
um lugar além da entrega voluntária
onde só um corpo estranho alcança
quando o desbrava com exatidão

por isso, como forma de ajuda
não moverei um sopro a teu favor
somente teu toque e tua vontade
serão capazes de revelar o oculto

caso contrário será como receber 
um presente da própria vida 
e se contentar em apreciar 
a beleza do lacre da embalagem

15

tempo não se arraste tanto
só quando eu lhe disser
voa feito passarinho
deixa viva a minha fé

mande forças para ela
que já nem sei onde está
faça das minhas palavras
abraços a lhe afagar

beija suas mãos por mim
finge que não foi você
deixa meu cheiro no ar
e diga que eu fui lhe ver

tempo quando isso passar
ah, eu vou lhe agradecer
ah, eu vou lhe perdoar
por que

fosse a pressa em teu lugar
íamos desfalecer
íamos nos afogar

nos ver passar
sem respirar
tampouco amar
nem mesmo ser

sem ver.