paradoxo e complemento

amarra meus pés segura minhas mãos
amordaça minha vida mas não limita minhas palavras

me prende aqui dentro fecha todas as saídas
mas me deixa viver nesse papel

passear entre essas linhas essas tintas esses sonhos
transformar amores medíocres em grandiosidades

nessa irrealidade onde pessoas pequenas
ocupam a folha inteira

e eu cresço junto mas cresço de verdade
alimentando a vontade de ser maior e melhor

aceitando a sina não imposta que escolhi
na qual a palavra precede o ato e o é ao mesmo tempo

já é tarde e o lirismo não vai mais me abandonar
irreversivelmente desistir de escrever seria desistir de tudo

a solidão é como uma tempestade

que destrói tijolo por tijolo os meus abrigos
E leva embora os amores como barcos de papel na enxurrada
Depois eu fico só
Fica só o frio
Estão todos loucos de uma loucura vazia
E eu, cheia de mim, quero sumir
Não como ave de rapina que sou, mas como pássaro pequeno que se esconde entre as nuvens

Se eu esperar pelo tempo bom, será que há de chegar?

Amar demais me transformou em um extremo
Não sei se me tornei mendigo ou rei
De qualquer forma, quis alguém, por esmola ou reverência
Alguém que não tivesse vergonha de sentir frio nessa terra de estações indefinidas onde não há inverno
E se agarrasse a mim mesmo que para se desfazer em suor

Mas o calor não faz mais parte dos abraços
E agora minha vontade é neve que derrete e escorre entre os dedos
E se mistura a enxurrada que levou embora o meu sorriso
Vou-me embora com eles, com elas, com todos que me deixaram para ver o sol nascer e se por de novo em solidão