A única droga ilícita na qual me viciei tinha o nome de uma pessoa. O resto, não passou da primeira, segunda, terceira vez.

"Estas alegrias violentas, tem fins violentos(...)" Shakespeare

Fiz tudo do único jeito que eu sabia fazer, mesmo sem saber direito o que estava fazendo. Mesmo sem entender, "aliás: onde tudo é aceito, desconfio que há falta de amor". Por isso eu pensei que havia amor até demais, por fechar os olhos para o mundo quando você estava do meu lado e não me importar com a concretude disso, com a explicação, o sentido, a coerência do fato. Eu não tinha idéia do que era, do que nós fazíamos, mas eu sabia que em alguns momentos nos tornávamos um só ser, e isso era suficiente. Tal qual uma criança, que não se expressa claramente, mas faz um desenho singelo dos pais dentro de um coração, eu te desenhei e desenhei a mim, desenhei o que eu sentia em cada palavra que saia da minha boca ou das minhas mãos. Desenhei quando eu te beijava e abandonava meu corpo, quando te deixava entrar no meu universo, no meu mundo, onde ninguém mais havia chegado. E para mim isso era amor, para mim isso foi amor.

Devaneios de uma quarta-feira à noite

Não deveria estampar tanto deslumbre assim com uma palavra sua, porque isso provavelmente te provocou uma puta vontade de voltar no meio do caminho. Mas é que eu sei o quanto deve ter sido difícil falar comigo depois de tanto tempo, sei a respeito das lutas internas que você travou para tomar essa iniciativa. E ter conhecimento disso é o que me fez ficar encantada, arrepiada, com sua voz rouca ao pé do meu ouvido de novo. Lembra daquele dia em que eu falei que se você me beijasse eu declararia o meu amor? Era mentira, foi só para ver sua reação. Eu já te amava muito antes daquilo. Não vou dizer que te amei desde o nosso primeiro encontro, eu mal te conhecia e você nem fazia meu tipo. Mas foi desde que recebi aquela carta, por acaso na minha caixa de correio. Lembro-me com detalhes das palavras, você dizendo que qualquer um seria capaz de se apaixonar por mim. Só hoje eu vejo o absurdo contido nessa frase, pois nem você foi capaz de fazê-lo. Mesmo depois que eu resolvi ser sua por inteira para atender aos seus mimos, você não me deu nem um terço, nada. E deixou o pote assim, tão vazio de você. Olha, escuta com atenção e grava bem isso - eu não ligo para os seus conselhos sobre orgulho ou desprezo e não vou segui-los, nem se você me pedir de joelhos. A gentileza com que sempre vou te tratar é exatamente a gentileza com que eu queria ser tratada e vou continuar pedindo pela sua felicidade até o último dia da minha vida. Não se preocupe, vai passar. Você é só mais um. Você quis ser só mais um e é assim que o verei daqui pra frente. Mas lembre-se, quando bater aquela vontade de ouvir minha voz no meio da noite, eu estarei aqui. Eu sempre estou aqui. Por você, para você.

Despindo-me

Eu quis vestir você. Porque até os seus defeitos eram interessantes demais perto dos meus. Quando eu olhava nos seus olhos e via neles o filme mais fantástico do mundo, minha vontade de ser protagonista só crescia, vontade de ser seu par, seu par romântico para o resto da vida. E eu sabia que esse desejo era certo e não mudaria tão cedo, pois quando alguém lá de fora me decepcionava, me assutava, quando a chuva batia forte demais no telhado, era para os seus braços que eu corria e só então me sentia segura, amparada, amada por você. Somente com você. Eu quis que cada verso que saia da sua boca fosse mais do que dedicado a mim, quis que eles fossem parte de mim e é por isso que apesar de ter rasgado todas as cartas, os melhores eu sei na ponta da língua. Tentei imitar sua forma de falar, de se vestir, e quando ficava sozinha em casa, me via desfilando com suas roupas - largas nos ombros - olhando em cada espelho, imitando as feições que você tinha feito no dia anterior, durante uma conversa banal ou um trânsito violento. E quando os encontros se tornaram menos frequentes, eu não podia mais me vestir do nosso amor, não dava mais pra ser você, assim, descaradamente. Tive que me contentar com o furto de pequenos objetos. Objetos que eu tentava tragar quando você ia embora, para sentir o cheiro que muitas vezes nem existia. Hoje sei que esses furtos fazem parte do que sobrou de nós e são talvez a única prova concreta que restou do crime perfeito que você cometeu ao roubar meu coração.

"Que está na fantasia dos infelizes"

Olha, eu não vou facilitar as coisas para ti porque não tem sido nada fácil para mim. Tu não me ajudas quando me olhas daquele jeito, acaricias minha mão de uma forma quase invisível e dizes que tal roupa me deixou mais bonita. Não se trata de vingança, de dar o troco, mas esses atos me fazem perceber que não estou sozinha no barco e fiques sabendo que nunca paro de remar antes de alguém. Portanto, enquanto ainda houver sinais vitais da tua parte, eis-me aqui, doçura. Eis-me aqui de todas as formas que desejares, na personificação de cada uma das tuas fantasias e na encarnação real do teu conceito de amor. A cada hora imagino, penso, idealizo o momento em que tirarás o coração do bolso e entregarás a mim. Durante a noite, meu inconsciente refletido em sonhos relembra onde quero chegar. Eu imploro para que o vento sopre mais forte dessa vez, e traga teu cheiro para perto de mim. Imploro para que nossas energias sejam realmente compatíveis, harmônicas, e para que você me mande aquela mensagem no meio da noite dizendo que sonhou comigo. E quando o dia amanhece, coloco no pulso um relógio parado, que é pra ver se retarda minha pressa de viver, minha pressa de você.

Um dia difícil

Eu só preciso dar o primeiro passo para que você me ajude com o resto. Triscar em você para que você me faça carinho e falar "oi" para que você me chame de princesa e me conte sobre cada parte do seu dia. Mas a questão é que eu não posso mais, hoje eu quero algo além de beijos, afagos, carinhos, além de detalhes bonitos para contar história. Quero alguém pra me tirar da solidão e me fazer verdadeiramente companhia, alguém que cuja janela da alma não seja apenas uma pupila refletindo minha própria imagem, que as cortinas se abram e me mostrem alguma essência, qualquer uma. Nem que seja para sentir uma falsa impressão de aprofundamento, arrombamento, ou seja lá o que for que penetra, entra, invade e alcança o que há por dentro. Você só viu meu rosto bonito, deixou-se enganar pelos sentidos. E eu me deixei enganar por você. Um livro cuja capa lhe interessou, você colocou na estante. Num belo dia enjoou do design, do jogo de cores, da aparência já batida, e resolveu jogá-lo na gaveta. Sem saber, porém, que as palavras ali contidas valiam o preço de uma vida. Mesmo desencadernadas, mesmo sem capa nenhuma.

O amor começa

O amor começa. Numa doce tarde de fevereiro ou numa escaldante tarde de setembro, quando o sol parece querer esquentar o clima entre os futuros amantes. Quando há um encontro de alma através de olhares e ao se provar a doçura de um sorriso sem porquê. Até à beira do precipício, naquele abraço que rouba as dores e ensina a voar. Às vezes, sob a luz de um semáforo vermelho, sob a luz de uma boate, ou pura e simplesmente sob a luz da lua, que cheia, é capaz de iluminar meio mundo. O amor começa apaixonadamente com um chocolate numa segunda-feira de manhã. De repente, no engasgo involuntário de palavras até então não ditas. Ele chega receoso quando as mãos se tocam dentro do cinema frio dividindo o calor do sangue circulante.  Por acaso, no bar da esquina, com o que sobra da visão da bola de sinuca entrando na caçapa. Na praia, depois do banho de mar, o sol grudado no corpo e o corpo grudado no outro. Quando um simples tocar de dedos mindinhos provoca reações grandiosas em cada mínima estrutura do organismo, é aí que o amor começa. Sem que se perceba, sem que se permita, sem que haja qualquer tipo de certeza ou compreensão dos fatos. Porque na verdade, amar é isso, é querer compreender o outro mesmo sem saber o que se passa no próprio coração.