2011

Entrei na faculdade, mudei de casa, ganhei uma afilhada, perdi um grande amor. Ele foi embora, e não doeu tanto, mas a gente tem mania de achar que não pode ser feliz, que ser feliz é pecado, que sofrer é uma obrigação. Foi então que minha intuição resolveu agir sozinha e procurou um amor pequeno, para que eu pudesse sentir por ele as dores que não senti pelo grande e tirar de mim a culpa por ter sido feliz quando não devia. Hoje compreendo que alguns amores são tão grandes que nos poupam do sofrimento, e outros são tão pequenos que não nos dão mais do que isso. Saí da casa onde morei a vida inteira e isso também não causou grandes impactos, meu novo quarto é grande e tem uma sacada de onde posso observar o céu, o universo, a vida, e há muitas plantas lá embaixo, é como se o tempo inteiro elas estivessem me purificando por dentro. Minha afilhada ainda está dentro da barriga da mãe e mal posso esperar para vê-la e dar a ela todo amor que um dia recebi, e continuo recebendo até hoje do ser que a gerou. Entrar na faculdade foi totalmente insignificante, apesar do alívio de ter passado no vestibular e ter provado que o melhor cursinho preparatório é ficar longe da civilização por um tempo. Serviu pra eu aprender que independentemente do meio, há pessoas medíocres, hipócritas, prepotentes, mas que a gente nunca deve fechar os olhos para as coisas boas que existem dentro delas. Daqui oito dias completo 18 anos, e poderia falar que 2011 foi como um "teste para a maioridade", mas a verdade é que a gente nunca tá preparado. Não vou dizer que cresci em 2011, porque dá a ideia de algo terminado e crescer é um processo contínuo que nunca chega ao fim. Prefiro dizer que continuei crescendo em 2011, talvez um pouco mais do que nos outros anos, e vou continuar crescendo no próximo ano e nos próximos e nos próximos. E até quando eu não estiver mais aqui, provavelmente continue crescendo. Espero que um dia eu vire gente grande por dentro também. Grande mesmo, como o amor que tive.

2012

Que seja tão real quanto 2011, mas com um pouco menos de dor, por favor. Que a minha raiva nunca dure mais do que um minuto. Que eu sinta cada vez mais a parte de mim na natureza e a parte da natureza em mim. Que minha vida possa ser uma metáfora e que o material e o sensível se misturem. Que a água da chuva sempre me lave por dentro, que o sol possa secar até as lágrimas que ainda estão por vir e que minhas corridas sejam válidas quando eu sentir vontade de fugir. Se na medida do possível, eu puder escolher meus amores, que eu escolha amores grandes, e nunca pequenos. Porque não há amor sem sofrimento, mas pelo menos os grandes compensam as partes amargas com sorrisos, enquanto os pequenos são tão medíocres que deles só restam lembranças ruins. Se o destino traçar algum dos meus caminhos, que eu saiba ser grata por isso e siga sempre adiante, entendendo que às vezes é inútil querer interferir na precisão das coisas. Que eu não seja feliz o tempo inteiro, mas que dentro de mim haja paz. Que minha alma continue evoluindo sempre e sempre. Que eu viva em estado meditativo e não me sinta exausta por isso, mas se por acaso eu me sentir, que eu possa desistir sem sem culpa. Que minha coragem para viver permaneça intacta. Que eu aprenda a respirar. Que a solidão me assuste menos. Que eu retarde a minha pressa de viver. Que eu seja sempre livre por dentro. Que minha literatura tenha mais amor do que dor. Que eu seja. Que 2012 seja.

re colhendo-me

Se eu te ensinar a sambar você me ensina a amar? Esta é a quarta noite seguida em que te escrevo e isso me faz pensar que até aqui valeu a pena, pois você já me tirou do chão, e tudo que tira do chão merece atenção especial. Tenho a impressão de que as palavras que saem da minha boca te assustam, te afastam, te levam cada vez mais rápido para longe de mim, mesmo que no fundo elas sejam tão carregadas de amor e energias boas e sentimentos bonitos. Desde já sinto saudade, não hesitaria em te querer por perto durante pelo menos mais alguns anos. Passaram-se apenas seis dias desde o nosso primeiro encontro e sinto que nunca serei para você mais do que sou agora. Queria ser mais leve, só um pouco, o bastante para conseguir me suportar sozinha e não ter que dividir o peso com ninguém, muito menos com você. E ao invés de te tirar o fôlego, te ensinar a respirar na cadência perfeita que tornasse a vida suportável. Ser o motivo do seu sorriso me bastaria. Não queria te fazer pensar, entender, compreender nada, só queria cortar as correntes da âncora que te prende ao chão, pra eu não voar sozinha. Te fazer sentir. Eu poderia ficar calada se você me deixasse dizer com os olhos tudo o que digo agora. Eu poderia ser seu amor à moda antiga, mesmo vivendo nessa pós-modernidade-de-merda. Tem um monte de coisas que eu gostaria de aprender segurando na sua mão. Me perdoa por tentar escrever algo maduro e ter me transformado em meras e eternas súplicas que não querem te ver partir. Me perdoa por ser tão mimada e sentimental, por não calar a boca nunca e por sentir tanta culpa. Me perdoa por ter estragado tudo, anjo.

errando de novo

É claro que somos inteiras, benzinho. Mas eu posso fingir ser metade só pra tu querer me completar, aí tu deixa tua outra parte do lado de fora da porta ou então finge junto comigo. Quem sabe um dia, por descuido ou poesia, de tanto fantasiar a gente acaba virando fantasia. Fantasia de ser dois em um. É claro que somos livres, amor. Ninguém tá preso ao chão ou ao céu de lugar algum, mas me prende nos teus braços, ma amarra no pé da tua cama e não me liberta nunca dessa prisão. Eu gosto quando me olhas daquele jeito e tentas encontrar meu olhar dentro do infinito. E quando me perguntas baixinho aquelas perguntas óbvias que tu já sabe todas as respostas. E quando me obrigas a fazer leitura labial e eu não aguento ficar com a boca longe da tua por muito tempo. Eu gosto de sentir tua respiração crua na minha. Gosto quando beijas minha testa daquele jeito singelo e me puxas pra mais perto do teu peito. E sinto que aos poucos te entregas a mim, coração acelerado, olhos fechados, boca aberta de prazer. Eu gosto de te beijar bem devagar e cravar a unha nas tuas costas, para sentir contigo o gosto de sangue e dor. E quando tentas me tranquilizar e na verdade estás mais assustada do que eu, também gosto. Ama comigo, fica comigo, vira metade comigo. Eu prometo que te ensino a sambar.

o silêncio também diz

Não importava quantas vezes você ia embora, era sempre a primeira vez. No fundo eu sabia que um dia te perderia de vista, e sabia também, em algum lugar ainda mais fundo dentro de mim, que eu nunca estaria preparada para isso, fosse daqui a um dia ou daqui a mil anos.