ordenando o tom da vida

Sabia que o silêncio lhe apeteceria mais do que qualquer palavra bonita. Por isso segurou dentro da boca a língua, como que a sete chaves, e tirou da vista toda as canetas e papéis. Mesmo que no fundo quisesse gritar ao mundo, não permitiu que escapassem de si os votos, desejos e fantasias. Mais importante do que isso, era que ela não lhe escapasse. Porque nada mais importava naquele momento, e mesmo o silêncio eterno seria suportável pois os abraços pagariam a dívida das palavras.
Que a poesia deixe de ser. E que de mim não escape nada além do vazio. O mesmo vazio que senti quando fui embora da sua casa, naquela noite de sábado, carregando comigo o peso e a dor da sua despedida que me pedia pra ficar.
Alguém que numa tarde de sábado queira deitar-se comigo no chão da sala e ceder-me qualquer parte do corpo como travesseiro para aliviar o frio e a dureza do chão.

01:41 AM

Procuro no google "como pedir perdão" - nada, só psicologia barata. Peço conselhos a um amigo que me diz que eu nunca vou entender completamente o que se passa aí dentro, mas que devo fazer o que estiver ao meu alcance e esperar que você faça sua parte também. Penso com medo na sua irredutibilidade. E escrevo com receio de que as palavras não entrem de verdade porque seu coração já está fechado para mim. É o que está ao meu alcance, baby. Palavras, atos, palavras que são atos. Se não vi, se desacreditei, se maltratei o seu amor, sei lá quantas vezes errei - que o peso dos meus erros não nos impeça de continuar, porque, conforme eu tentava contabilizar minhas faltas, me perdi nessa outra conta de quantas vezes ainda posso estar presente e acertar, se você deixar.

São quase três da manhã.
e ainda não pensei em uma forma genial de te pedir pra ficar.

São quase três da manhã.
Você não sabe, mas eu também tenho medo de ficar acordada a essa hora.
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E foi assim que eu pedi perdão
Pedi para que ficasse comigo
Em um papel enrolado e letras batidas com muita força
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Mas deixou predominar a imperdoabilidade da alma
Se é que isso existe
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Deixa passar o passado
Que o presente seja tua eternidade
E esqueça, de uma vez por todas, tudo que te rouba a vontade de viver

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Em mim
O silencio ecoa para dentro
E causa o caos
Mais do que qualquer grito.

PS: este texto contou com a contribuição de Bruno Batiston.

pré-meditando

Te olhar nos olhos quebraria qualquer tipo de silêncio. Por isso apenas ouço sua voz. Distante. Do lado de fora desta sala e tão dentro de mim. Tento decifrar cada nuance de som. Fecho os olhos e mentalizo a paz que senti quando você me sorriu. Não vou mais gritar, vou cochichar baixinho no seu ouvido, permaneça. E o seu corpo vai se arrepiar com o sopro que sair da minha boca mas se você disser não e for embora eu não vou te pedir pra voltar. Olhei para o céu enquanto voltava pra casa e me pareceu que o mar tinha mudado de lugar. Sim, o mar. Tão azul, tão pesado, tão infinito, tão salgado e violento. Se desprendeu do chão. Se até o mar pode voar, por que não? Você não é menos infinita do que o mar.
Eu vigiaria teu sono porque é isso que pessoas apaixonadas fazem.

autoajuda

Lembro-me de outras dores e procuro algum tipo de diferenciação. Algo que as torne especiais e únicas. Só o que vejo são tristezas e lágrimas e saudades que não passaram. Hoje eu desistiria de ser escritora para me libertar de tudo isso. Para achar o meu orgulho, o meu silêncio, e a beleza da minha solidão. Colecionei tantos amores falidos e não sei no que me tornei. Me perco em tantos olhos e não encontro meu próprio olhar no espelho ou mesmo dentro de mim. Esqueça o passado, esqueça o futuro, o presente é a única eternidade. Ame a si mesma. Seja você. Seja egoísta. Enxergue em si mais do que a beleza externa. Enxergue em si mais do que os outros veem. O melhor sempre passa despercebido. Principalmente quando se está com o coração fechado. Você não pode abrir o coração de ninguém. Você é pequena, incapaz. Cuide de si e estará de bom tamanho. Um dia eu aprendo.

um dia..
O silêncio ensurdece
Não consigo mais ouvir meu coração

Será que ele ainda bate?
Será que ele ainda ama?
Será que ele ainda está aqui?

naufrágio nº dois

Suicídio diário. Meu masoquismo ainda me mata um dia. Ontem não reparei na roupa que ela vestia, tudo que consegui ver foi seu olhar e sua expressão séria, postura rígida. Pessoas costumam ficar sérias quando sabem que fizeram algo errado, mas não acho que seja o caso. O erro só é erro do meu referencial. E eu já perdoei, mesmo sabendo que o pedido de perdão nunca vai chegar. Sentimentozinho medíocre e eu achando que tínhamos alguma obrigação, respeito, compromisso ou livre arbítrio que nos unisse. Medir o amor em estatísticas que nunca mudam. Esperar, implorar, viver por alguém e depois desistir e conquistar, beijar, me apaixonar por outro alguém e depois desisitr e sorrir, olhar, tocar e desistir. E meu coração continua mais aberto do que o de todos juntos. E os traumas pesados continuam me causando repúdia. Outro dia pensei em tatuar "open" bem no meio do peito só pra assumir de vez a postura de revolucionária sentimental, louca, desvairada. Perdi meu orgulho em alguma esquina e isso seria decadente, mas o orgulho dos outros é tanto que ocupa o espaço do meu e dessa forma eu acabo contribuindo para o equilíbrio universal. Ela reclamava do estalo barulhento dos meus beijos e da tremedeira dos meus braços, e até isso eu tentava corrigir, para ser perfeita aos seus olhos. E agora compreendo que mesmo seu eu cortasse minha língua e meus dedos e vivesse em silêncio pelo resto da vida, ainda seria insuficiente. Seria insuficiente porque nenhum ser humano consegue se alimentar de migalhas para sempre. Eu morreriaa de fome, meu coração sentiria muita sede e o drink das minhas lágrimas seria tão salgado que alimentaria minha sede até que eu chegasse à morte. Me deixa ser eu do jeito que eu sou. E daí se indiferença é o contrário de amor? Quem foi que disse que eu quero o contrário do amor? Eu só quero o amor, do jeito que ele é. Dolorido, intenso, sublime, casual, eterno, efêmero, contrário, bonito, feio. Eu quero o amor sorrindo, eu quero o amor chorando. Eu só quero amar. Mas ninguém me permite amar a dois. E eu vou mandar Cazuza calar a boca da próxima vez que ele cantar só se for a dois, porque eu vou saber que ele está certo e que não dá pra amar de verdade se a gente estiver sozinho no barco. Se não for o barco do Caio, vai naufragar, não adianta, sozinho a gente fica girando em torno de si mesmo e ninguém, repito, ninguém nesse mundo tem braço forte o suficiente pra remar sozinho a vida inteira. Uma hora o corpo cansa, a alma cansa, tudo cansa. E a gente pede arrego. Eu peço arrego. Eu peço arrego e imploro para que ela durma comigo essa noite. E ela continua dizendo não. Não.