tudo se cala no meio de nossos corpos

deixei de escrever
quando você se tornou
meu poema
e meu silêncio

o egoísmo
da poesia silenciosa
me consumiu
até aqui

a rima envolta
na sua pele
a métrica
do seu pescoço 

nada basta
porque o amor
pelo menos ele
há que ser dito
da escuridão 
quero apenas o referencial
de beleza dos cegos
que não veem
mas sentem o belo

somos a penumbra
quebrando a exatidão 
dos dias e noites
a ponte entre o sol e a lua
a transição, a exceção, o elo

you know
eu prefiro
te observar
com as mãos 

bom dia

a essa hora eu já teria comprado o pão
ou estaríamos na cama como dois gatos se esticando
e depois de nos espreguiçarmos e nos irritarmos
sorriríamos para o primeiro gozo do dia.

sozinha, me alimento de Matilde
ela fala de amores semieternos
e me pergunto se é isso que seremos daqui algumas horas
qual será o grande motivo dessa vez?
que meteoro caído cortará nossa eternidade com sua lâmina afiada?
a terra é bombardeada a todo momento por toneladas de material cósmico,
não seria difícil achar uma explicação.
mas você sabe que quando se trata de nós
é mais fácil fazer a humanidade entrar em consenso
sobre a existência de vida em outros planetas,
é mais fácil convencer o mundo inteiro
de que os x-men andam soltos por aí
do que achar uma teoria que explique razoavelmente
tantos encontros (e desencontros).
não há uma justificativa possível para o nosso amor
e nessa incompreensão mora um tanto de beleza.

todas as causas nos escapam
e por falar em escapar,
imagino você voando
e indo para bem longe
leve como uma pena
sobre a pedra que sou
enquanto permaneço ao solo

não sei se você chegou a ver
mas alguns juízes têm usado poesia para proferir sentenças
particularmente acho mais eficiente usá-la como defesa.
nesse caso específico existe uma coisa vermelha e pequena
pulsando por trás da caixa torácica (feche a mão para imaginá-lo)
não é engraçado que a única forma de simular o coração seja serrando os punhos?
é um constante estar pronto pra briga
e mais do que isso - estar pronto para perder
porque nós sabemos que a caixa torácica não é forte o suficiente
e mesmo se fosse, a ameaça física é só o início
a coisa vermelha pode ser atingida por um fluido espiritual
ou por qualquer uma dessas energias invisíveis
que alguns preferem chamar de sentimentos.

há uma coisa, apenas uma coisa 
que nem a poesia nem os ossos nem ninguém pode fazer
que é proteger o coração do amor.
os cientistas ainda não descobriram, os poetas também não
mas o amor é uma bala que chega na velocidade da luz
e fica acoplada à pele até decidir a hora de ir embora.
muitas vezes a hora não chega e ele vai ficando, ficando
até ficar pra sempre, como um novo órgão
invisível e indispensável para o funcionamento do organismo.
se isso é tudo que desejamos - um amor que não vá embora,
suspeito já que nascemos com um pequeno buraco no peito
cuja única função é receber a bala.

o coração só quer um disparo que o atinja e não o parta.