31st

- Queria que agosto acabasse e que setembro fosse feliz.

- Amanhã acaba.

- Amanhã. Nunca gostei dessa palavra.

- Por quê?

- Porque nunca sei quando vai chegar. E me incomoda essa ideia de futuro.

Here and now. É onde ela quer estar, se possível aqui dentro, com meus desejos e anseios, minha carência e minha rendição. A transformo em literatura mas é pouco perto do que deseja de mim. Que o táxi nunca a deixasse em casa sem mim e que eu a esperasse sem roupa, na sacada. Viver a dois é mais difícil do que viver sozinho. E todas as chances e sonhos do mundo parecem insuficientes para fazer durar. A efemeridade da vida é realmente assustadora, amor, e a eternidade só existe dentro de nós. Por mais que doa, que sangre, que chore. Quando a gente quer que passe, fica; e quando a gente quer que fique, passa - irônico ou não, é próprio do viver. E se não durar até amanhã, apaga a luz que é pra passar despercebido. Mas quando o sol nascer, promete que eu não vou ser só mais uma ferida, que você vai olhar pela janela e vai sorrir para mim, mesmo sem saber meu paradeiro. Às vezes o porto é inseguro e nem por isso deixamos de jogar a âncora e querer ficar, ficar, ficar, até desistir de explorar outros mares.

eu, parede

São tantas cartas de amor que eu esqueço de me corresponder. Hoje eu só quero dizer que quero chorar e que me cansei de morar onde estou, onde sou. As paredes estão cheias de sujeiras e vestígios do que já deveria ter passado. Nessas horas é preferível não ter passado, mesmo que ele seja identidade e que tenha sido o guia até aqui. Ou tenha desviado do caminho. Agradeço à bendita tecnologia que me permite escrever de olhos fechados e intensificar ainda mais o sentimento. Como que num discurso interno, digo pra mim, grito pra mim, tento me convencer de tanta coisa que já nem sei mais. O lar da alma não é como o lar do corpo e não dá pra mudar quando o cansaço vem, quando se enjoa do lugar, quando as paredes encardem e o chuveiro não fecha direito e surgem goteiras na sala. Vou ligar para o frete e pedir para levar todas as lembranças, todas as dúvidas, e me levar embora também. Quinta-feira já passou e eu ainda não sei o que é paz. Se quero paz, se quero que me deixe em paz, se quero algo que me tire o sossego. Sei pouco demais sobre o que me cerca e me preenche. Me esvazia. Uma hora eu acerto e cubro o buraco que cavei em mim. Uma hora eu acerto e faço alguém feliz e me faço feliz por consequência. Porque alegria verdadeira é alegria compartilhada. E a tristeza? É preciso dividir para que exista de fato? É necessário compartilhamento para que haja verdade? Ou será que a verdade mora sozinha dentro do peito de quem sente?

macio

há em mim um mar
que existe não pela água
ou pelo sol

nem suor
nem lágrimas

minha metáfora é mais contraditória

há em mim um mar
que existe
para que o vento
trazido pelas ondas
seque tudo que molha
que escorre

a maré subiu
e trouxe consigo
uma saudade diferente
longe do banzo
e da nostalgia

saudade que fortaleceu
o que ainda é novo
aqui dentro

saudade que eu mato
todos os dias
para que renasça de novo

não das cinzas
como o pássaro fênix
mas do próprio fogo
como uma chama que

eu não quero que apague