Eu não me desnudo quando escrevo, porque o que escrevo pode ser facilmente visto em meus olhos. Eu me desnudo quando o despertador toca.

entre tantos

Me perdi na sua multidão

Pensei que meu oxigênio tinha mudado de forma. Quando fechei os olhos percebi que não, eu me afogava por querer. Imersa no fundo de um oceano desconhecido, em busca de um tesouro que eu sequer sabia se existia. O sal queimava os olhos, grudava no corpo, ardia a alma. O ar já não existia mais, e por sorte o corpo se esqueceu dele. Tudo se calava perto da vontade de alcançar o inalcançável.
Confesso, foi bom tê-lo em mãos. Deixei de ser um mero corsário e me tornei pirata de mim mesmo. Mas só foi bom enquanto eu era único, o único a saber de sua existência, o único a contemplar seu brilho. Quando o mundo o descobriu, ele tornou-se tão banal quanto qualquer outro baú encontrado no fundo do mar. E não tive escolha, senão distribuir cada uma das moedas a quem as desejasse. Não conseguia sentí-las como minhas. E se um dia fomos um, eu faltava um pedaço agora, eu era metade.

Te perdi pra sua multidão. Multidões. Multidores em mim.
Não importa quão incompleto você se sinta, sempre haverá uma pá de coisas que terão de ser deixadas para trás. Exatamente aquelas coisas que uma mala nunca poderá levar. Mesmo se a mala for o seu coração.

um poema que é meu

Ela é a poesia mais bela que eu não li.
Sempre surgia vestida com lâmpadas,
Trazia sempre um sorriso que vinha de sua alma límpida
voando de leve acariciando a luz.
Transformando tudo o que tocasse em poesia.
Ela sempre tinha uma festa nos olhos
e dançava no ar fabricando brisas.
Repousava em algum lugar construindo sonhos,
e depois, quando acordava os distribuía.
Ela sempre parece dizer, mesmo quando emudece.
Vem com aqueles olhos de profundidade indizível
sem nunca mencionar melancolia, só doçura, só paixão desmedida.
Vem como uma maneira suave de arrebatar terrivelmente qualquer desanimo e fazer qualquer um e todo mundo se apaixonar tão logo.
Por favor não esbarre em suas pétalas de tulipa, de orquídea, de papoula.
Ela é preciosa, e antes que eu soubesse seu nome, já me trazia paz, e uma sórdida alegria.

Esse é o segundo texto postado aqui que não é escrito por mim. E, assim como o outro, também foi um presente. Presente lindíssimo, por sinal. Obrigada ao Demur Moreira por isso, pelos sorrisos, pelas palavras, pelo cavalheirismo romântico que eu havia julgado extinto.