dia sete

meu amor,

nunca saberei sua real extensão porque conosco acontece o mesmo que ocorre à história diante dos grandes acontecimentos. é impossível ter noção da importância dos fatos quando  quando se está dentro deles. espero nunca saber seu real tamanho porque você insistirá em ser um grande acontecimento dia após dia e eu insistirei em permanecer dentro de você de todas as formas possíveis. você é o maior acontecimento e para nós isso basta. basta também que eu meça seu tamanho de perto, o formato dos seus dedos, a textura ressecada da tua boca no inverno, os caracóis iluminados do teu cabelo e todas as coisas que seria impossível mensurar a um passo de distância. que seja sempre assim. que deixemos por conta dos outros qualquer análise que exija um grau mínimo de impessoalidade. que sejamos responsáveis apenas (por nós?).

casca

0. introdução
se alguém disser que ama sua fraqueza estará mentindo. ninguém quer percorrer o universo incerto para além da casca dura que você passou anos construindo. por dentro sangra. por dentro não é tão bonito.

1. a lembrança
posso sentir o atrito. a pele do joelho raspando com força e acidentalmente no cimento do chão do quintal. na infância eram esses os tombos que agora servem de metáforas para outros maiores e mais doloridos não tão literais porém mais letais. passada a dor, havia a urgência e emoção em tirar a casca, matar a ferida. romper o curso natural de cicatrização e correr o risco de encontrar algo desagradável por baixo da crosta. ainda hoje carrego resquícios dessa urgência.

2. a camada
mas aqui entramos em outro ponto, que é na verdade o foco deste devaneio. a casca. a facilidade e a naturalidade com que fazemos isso na infância. coragem.

3. a origem dos tombos
grande parte dos tombos foi em momentos de alegria em que não era possível evitar o auto-atropelamento. pés se embaraçavam na pressa. a rapidez acompanhava a empolgação por qualquer coisa hoje idiota.

4. internato
ainda lembro como se fosse hoje. quando cheguei no colégio interno, fora os adventistas, as pessoas, no geral, eram conhecidas pelos seus erros. cada um foi mandado para lá por um motivo específico, para "consertar" alguma coisa. por causa dos nossos erros nos encontrávamos. estávamos todos no mesmo balaio-humano-errático. ainda estamos.


fragmento

suspeito que o grande desafio do amor
seja evitar que a alegria se concentre em um único ponto

como a pinta nas suas costas
que poderia abrigar tudo que ainda hei de sorrir

mas dessa forma nos afastaríamos
da essência do sentimento

essa dispersão quase bêbada da euforia
que nos faz feliz no ocaso e na aurora
e em todos os instantes nos quais ingenuamente queremos morar

onde a arte não precisa ser uma fuga
onde o mel escorre indiscriminadamente
e mesmo no asfalto vislumbramos o mar



faz tempo que o amor não passa do primeiro passo
degustação
por isso não posso perder a solidão de vista
não quero esquecer o caminho do lugar para onde acabarei voltando
meu coração não carrega mais o peso das tragédias
e o fim não é mais uma prova de fogo
porque até os desafios perdem o grau de dificuldade
quando se tornam uma constante

quero me sentir segura como o beija-flor suspenso no ar
mesmo sabendo que nenhum outro pássaro é capaz de tamanha estabilidade
o grande segredo está nos redemoinhos invisíveis
ao contrário das outras aves, ele não agita as asas pra cima e pra baixo,
mas para a frente e para trás, na horizontal
a isso deram o nome de truque do voo invertido
nesse caso a rapidez não é tudo
são oitenta batidas por segundo
mas no fundo, é só uma questão de jeito
assim como as aventuras,
aberturas, exceções
eu não quero mudar de combustível

estou perdendo o jeito

é tudo que consigo pensar
quando você dorme ao meu lado
e não tiro sua roupa

observo a vida do vigésimo terceiro andar
e só posso escrever sobre o que vejo
desde que tomei uma distância segura
desde que assumi as rédeas de mim
a literatura se tornou algo distante
estou torcendo um pano seco
quero as palavras mas não quero me molhar

de qualquer forma é um caminho
uma possibilidade
tudo tem seu preço mas nada é tão irreversível
até a surdez do beijo na orelha passa
e a ponte que durante o carnaval
abre mão dos carros e recebe os passos lentos
de quem vai em busca da felicidade

é só o que queremos
e se o amor nos parece um atalho
por que não?


17.01.2017

estou trabalhando há dois dias no mesmo texto. temo nunca mais escrever com tanta liberdade. de um ou dois anos pra cá, nasceu em mim um medo de soar ridícula. por isso estou cortando as partes ridículas do poema antigo para declamá-lo. ao final posso descobrir que ele era ridículo de um todo, assim como eu, e então nada se salvará, nem eu, nem o poema, porque somos tão rendidos e dementes que nos tornamos descartáveis. o contrário também assusta. o ridículo pode ser justamente o que temos de mais belo e por medo de soarmos vulneráveis talvez estejamos abrindo mão da beleza. por que eu nunca sei o caminho? por que tenho tanto medo de ser essa interrogação?

dois pra lá, dois pra cá


de um lado a gente dançando na sala. do outro eu desistindo de nós por falta de disposição para amar a conta-gotas. de um lado a marca no meu pescoço e eu te mostrando minha intimidade. do outro você perdendo o tesão e fingindo que é normal. de um lado a escritora que vibra e sorri só de ouvir sua voz. do outro a mulher forte e autossuficiente que finge silêncio pra não sofrer (mas sofre). de um lado a euforia, do outro a indiferença. de um lado o drama, do outro a indiferença. de um lado o amor, do outro a indiferença. o problema é que eu entrego os pontos, perco as forças, abro mão. caio do touro e fico no meio da arena esperando para ser pisoteada. me atraem as derrotas triunfais, as tragédias que levam ao encontro da solidão. estou encolhida no canto da sala, pequena e indefesa. estou sufocada e reprimida. eu não sei pisar em ovos mas ainda não desisti, eu nunca desisto.  é só escrever, escrevendo eu sobrevivo a tudo. escrevendo me sinto viva.

a poesia é o rastro inconfundível do amor

eu queria que você me visse por dentro
mas escrever também é uma forma de ser de vidro
o desafio é fazer com que as palavras sejam certeiras
dar sentido e ser sentida

eu queria te contar sobre a minha combustão
eu pego fogo quando o coração pulsa tão forte que causa atrito
mas há um extintor sempre a postos
como o músculo da coxa que contrai quando você chega perto

a poesia é o rastro inconfundível do amor
a prova inconteste, o raio-x do osso quebrado
é um modo de encarar a vida
tão eficiente quanto sua fuga silenciosa

eu pensei que poderia ser frágil novamente e voltar aos dezesseis
mas é impossível abrir mão da mulher forte que me tornei
porque é isso que esperam que eu seja vinte e quatro horas
quando cogito a possibilidade de existência do grande amor
projeto um lugar - peito - abraço - onde eu possa ser menos

há alguns anos tomamos consciência sobre estar no meio da guerra
e desde então procuramos nos esconder atrás de sacos de areia
tomamos fôlego e nos livramos do peso do escudo por um minuto
então entendemos que o amor não é uma batalha, amor é estar em paz

escrevo pra te dissolver
pra me libertar
pra confeccionar o indício
de que um dia você esteve aqui

escrevo enquanto
escrevo para

te escrevo

com um coração ao fundo
nomeando a trilha sonora

sinto saudade da sua voz

novembro/ 2016

dia 21
hoje o dia se arrastou. preciso de colo. preciso compartilhar meu sono. a falta de deitar a cabeça noutro peito é maior do que a falta de qualquer pessoa. mas não vou cair no mesmo erro. existe um buraco dentro de mim e não quero preenchê-lo com adubo. o amor não precisa de estimulantes.

dia 22
o dia acordou difícil mas terminou em ciranda. as coisas estão fora do lugar. elas sempre estão. no malabarismo diário há uma peça que sempre deixo cair no chão e ignoro por saber da minha incapacidade de gestão. reconhecer com lucidez a própria vulnerabilidade ajuda a aliviar. hoje toquei baião e ciranda na caixa. embora não seja meu instrumento preferido, a caixa é sóbria e preciso disso para me lembrar que ainda sei (me) conduzir. alguns chamam de caixa de guerra, já que surgiu para fazer a marcação das marchas militares. estamos na guerra.

dia 23
é natural que eu me assuste ao ver o monstro da solidão crescendo, voltando, tomando forma. preciso ficar sozinha pelo menos até o carnaval. preciso esquecer o amor e me lembrar do tempo que perdi achando que era amada. quero desfrutar de belo horizonte com liberdade. hoje o dia foi mais leve, talvez o inferno astral não esteja tão próximo assim. dormi à tarde sem culpa e adiei outras obrigações. estou procurando nos homens uma doçura que receio não existir. estou perdida em minha solidão e ela se une às possibilidades de liberdade e experimentação.

dia 25
me sinto vulnerável em rotatórias. é como se a qualquer momento alguém fosse ignorar as leis implícitas e invadir meu espaço causando uma colisão. no caso de velocidade alta, os acidentes são fatais. tenho passado pelas pessoas como quem passa por rotatórias, correndo perigo. rapidamente. não adianta seguir as leis naturais. estar no trânsito é um risco. viver é um risco e é preciso lembrar disso até quando solidão é uma pedra no sapato. não consigo deixá-la. 

dia 27
hoje tocou cazuza no bar. te pego na escola e encho a tua bola com todo meu amor. faz parte do meu show. e eu me perguntei como seria se você estivese comigo em todos esses anos. será que eu cresceria tanto ou seria sempre sua eterna criança? o que você diria se me visse hoje? ainda teria orgulho de mim? do seu lado eu seria sempre uma menina e isso não é ruim. às vezes observo as linhas da minha mão e sinto vontade de ir em uma cartomante pra saber se você ainda volta. você ainda lê machado de assis antes de dormir? ainda fantasia um mundo paralelo para além das flores do jardim? sinto que estou perdendo minha ternura. preciso de alguém que resgate a parte doce de mim.

sou uma fábrica de tempestades

e nisso reside boa parte dos meus erros
sempre tive medo de trovões e rajadas de vento
mas ao invés de evitá-los faço a dança da chuva
instinto tragicômico masoquista experimental
nascido da necessidade de estar cara a cara com os temores

se você fosse um lugar, seria meu esconderijo

um campo coberto de flores com pétalas aveludadas
no meio da floresta protegido pelas árvores mais altas
um abrigo exposto ao sol inteiramente aberto
(você sabe que eu nunca me esconderia no escuro)

quando penso nisso e deito para olhar as nuvens
pequenas plumas brancas grudam na minha roupa

acho que estou sonhando
mas o que é o amor
senão a linha tênue
entre a realidade e a fantasia?

e se você fosse um pedaço de espaço
uma parte de mim moraria em você
mesmo com o corpo se deslocando sem querer
para tantos outros lugares automáticos

(mas isso já acontece
 não mudaria nada)

nem tudo está perdido

aliás, nada estará perdido
enquanto houver um único suspiro
em nome do amor

enquanto der pra dividir a vida
em um milhão de atos
e amar nos intervalos
pausando o espetáculo vazio

acho que mesmo as coisas boas
não são apenas boas
como naquele dia em que falávamos 
sobre o gosto ímpar do molho agridoce
ou como nossa briga
depois do jantar romântico 

é muita sorte 
que no fim de cada cena
eu acabe nos seus braços 
sempre acho que carrego
um bilhete premiado
um biscoito da sorte

mas é só a fé
falando mais alto que tudo
pra gente não esquecer
nem por um segundo
de acreditar em nós

afinal

nem tudo está perdido

sexta-feira,

enquanto saíamos do bar
para nos enrolar nas cobertas
alguém morria de frio

alguém era consumido por um buraco
que nasce dentro do peito
e se alastra por todo o corpo
destruindo a capacidade
de permanecer com vida
porque frio é físico
mas frio é falta,
e bastaria um abraço

deve ser esse o jeito mais solitário de morrer

"o brasil não está preparado pra tanto frio"

ainda bem que eu tenho você

tudo se cala no meio de nossos corpos

deixei de escrever
quando você se tornou
meu poema
e meu silêncio

o egoísmo
da poesia silenciosa
me consumiu
até aqui

a rima envolta
na sua pele
a métrica
do seu pescoço 

nada basta
porque o amor
pelo menos ele
há que ser dito
da escuridão 
quero apenas o referencial
de beleza dos cegos
que não veem
mas sentem o belo

somos a penumbra
quebrando a exatidão 
dos dias e noites
a ponte entre o sol e a lua
a transição, a exceção, o elo

you know
eu prefiro
te observar
com as mãos 

bom dia

a essa hora eu já teria comprado o pão
ou estaríamos na cama como dois gatos se esticando
e depois de nos espreguiçarmos e nos irritarmos
sorriríamos para o primeiro gozo do dia.

sozinha, me alimento de Matilde
ela fala de amores semieternos
e me pergunto se é isso que seremos daqui algumas horas
qual será o grande motivo dessa vez?
que meteoro caído cortará nossa eternidade com sua lâmina afiada?
a terra é bombardeada a todo momento por toneladas de material cósmico,
não seria difícil achar uma explicação.
mas você sabe que quando se trata de nós
é mais fácil fazer a humanidade entrar em consenso
sobre a existência de vida em outros planetas,
é mais fácil convencer o mundo inteiro
de que os x-men andam soltos por aí
do que achar uma teoria que explique razoavelmente
tantos encontros (e desencontros).
não há uma justificativa possível para o nosso amor
e nessa incompreensão mora um tanto de beleza.

todas as causas nos escapam
e por falar em escapar,
imagino você voando
e indo para bem longe
leve como uma pena
sobre a pedra que sou
enquanto permaneço ao solo

não sei se você chegou a ver
mas alguns juízes têm usado poesia para proferir sentenças
particularmente acho mais eficiente usá-la como defesa.
nesse caso específico existe uma coisa vermelha e pequena
pulsando por trás da caixa torácica (feche a mão para imaginá-lo)
não é engraçado que a única forma de simular o coração seja serrando os punhos?
é um constante estar pronto pra briga
e mais do que isso - estar pronto para perder
porque nós sabemos que a caixa torácica não é forte o suficiente
e mesmo se fosse, a ameaça física é só o início
a coisa vermelha pode ser atingida por um fluido espiritual
ou por qualquer uma dessas energias invisíveis
que alguns preferem chamar de sentimentos.

há uma coisa, apenas uma coisa 
que nem a poesia nem os ossos nem ninguém pode fazer
que é proteger o coração do amor.
os cientistas ainda não descobriram, os poetas também não
mas o amor é uma bala que chega na velocidade da luz
e fica acoplada à pele até decidir a hora de ir embora.
muitas vezes a hora não chega e ele vai ficando, ficando
até ficar pra sempre, como um novo órgão
invisível e indispensável para o funcionamento do organismo.
se isso é tudo que desejamos - um amor que não vá embora,
suspeito já que nascemos com um pequeno buraco no peito
cuja única função é receber a bala.

o coração só quer um disparo que o atinja e não o parta.

você mudou de rosto,

você mudou de cor, mas ainda guardo nossa história, nossa versão de amor como um manuscrito que nunca será publicado ou destruído. naquele tempo eu não era dada à astrologia, caso contrário viveria a procurar alguém com teu mapa astral. só lembro que o dia do teu nascimento formava o desenho exato do infinito e que sorte eu tinha por não saber quase nada. 

especialmente hoje

eu te quis por perto
mas você não estava

não sei onde você estava
faz tempo que não sei seu paradeiro

acho que a morte
é quando deixamos
de alcançar alguém 

é não poder quebrar o silêncio
em hipótese alguma
nem mesmo nesses casos

hoje eu precisei muito de você

eu que não sou de fugir

me apeguei à calmaria
depois da última tempestade

o afogamento causa
uma sensação ligeira
de proximidade com a morte
e isso é assustador

estou funcionando
com cinquenta por cento
da minha capacidade

sinto que sou um daqueles casos
de aviões que perdem uma asa
e esperam pousar em segurança

até mesmo o amor

não deveria
resistir a tanto

tenho lutado
e você
a golpes baixos

mas ele não cai
ele se fere
mas não cai