poema sujo

nos ponteiros do relógio achou a coragem que lhe faltava e desistiu enfim do sonho de adolescência
 pela consciência de que nenhuma vontade é tão grande para manter sozinha a vida de um amor
deixou a ilusão morrer à míngua e durante o luto só chorou de amargura e gratidão
aceitando a própria inocência como um sinal vital verdadeiramente belo
descobriu que algumas dores não tem sequer licença poética
mas andam por aí como se fossem permitidas
fez um poema sujo disfarçado
palavreando cadenciado
para esconder
a sujeira
do 

à nostalgia

As gaivotas nunca pousam quando sabem que são esperadas. Mas naquela época eu não sabia disso, e corri atrás da felicidade de tal modo que acabei sendo atropelada por ela. Agora meu coração não passa de uma bússola estragada, que ainda não parou, mas não sabe sequer onde está o norte. As coisas mudaram muito desde o dia em que te encontrei naquela escada, e eu tenho me perguntado várias vezes ao dia, por que é tão difícil amar? E deixar o amor roubar o ar sem morrer por isso. Eu não sei mais como fazer, amor. Sou um samba em inglês sem percussão, só voz e violão. Ainda espero por alguém que apareça numa quinta-feira de manhã com um violão e uma melodia pronta, pronta pra me fazer chorar, e me convide para sentar no chão, alguém que depois faça alguma coisa por mim, me dê a vida, morra por mim. Eu não consigo mais me encaixar aqui, é como se eu fosse cair a cada rotação da terra. Temo que o universo não seja mais o mesmo desde aquele dia em que eu te encontrei. O meu não é; o resto, não sei.

Sonhei que eu te fitava do edifício mais alto da cidade e à noite, quando o sol se punha, você entrava em mim pela janela do meu apartamento. Nos sonhos o amor é tão grande quanto eu gostaria que fosse, e até a janela mais alta fica a dois palmos do chão porque a vontade nos aproxima mesmo sem querer. Por que é que eu ainda sonho com você? Nos sonhos você cumpre as promessas, não todas, mas as que incluem ficar até o fim. E você nunca saberia seguir sem mim porque em cada partícula de oxigênio que você respira tem meu nome escrito. Nos sonhos você sonha comigo todas as noites e acorda com o peso da minha perna que inconsciente, só quer te prender aqui, só quer te fazer ficar. Nos sonhos você me sorri e arrisca a vida quantas vezes for preciso para que não precisemos arriscar o nosso amor.

acidente virtual

cuidado

dentro da modernização, da mecanização da vida, qualquer clique em falso pode acelerar o coração que está do outro lado da tela.

cuidado

acidentes virtuais também interditam o caminho, desviam da rota segura, pré-programada da felicidade. e não há seguro que cubra o buraco da saudade, que fica ainda mais profundo depois de tal provocação.

cuidado

as reações são diversas. adversas: choro, insônia, inquietação. positivamente podem provocar um riso, um texto de amor em forma de manual e até um encontro casual no início da semana.

todo cuidado é pouco quando o acidente é programado pelo destino.


chorar pra dentro

Se chora pra dentro quando se olha pelos poros do corpo e não se enxerga nada. Quando a resposta não aparece nem dentro nem fora de si. Chorar pra dentro é deitar na cama com o corpo em posição meditativa, com as mãos calejadas, mas ainda assim receptivas, prontas para receber a energia que cura. É sentir o poço de lágrimas se formando nos dois olhos - que não é rio porque tem sal e não é mar porque não tem onda - inerte. Apenas poço, poço onde se mergulha quando não se encontra outra solução e a fraqueza grita querendo sair. Chorar pra dentro é continuar piscando na mesma intensidade e esperar que a lágrima não caiba mais, para que escorra perifericamente por cada saída possível desse labirinto colorido. E percorra a bochecha, e preencha cada curva da orelha até cair no tecido morno do travesseiro, que em vão, tenta apoiar a cabeça. Algumas, as que saem pela periferia interna do olho, em direção ao centro da face, contornam o nariz, e parte entra pela narina, outra parte toca os lábios mas não deixa gosto salgado porque tudo permanece imóvel, inclusive a língua dentro da boca. E desce pelo queixo, busto, umbigo, até que o líquido lacrimal tenha se diluído por completo. Chorar pra dentro é tentar manter o compasso da respiração e inevitavelmente perder o controle, não só disso, mas de todo o resto, até botar tudo pra fora. Até o choro.