novembro/ 2016

dia 21
hoje o dia se arrastou. preciso de colo. preciso compartilhar meu sono. a falta de deitar a cabeça noutro peito é maior do que a falta de qualquer pessoa. mas não vou cair no mesmo erro. existe um buraco dentro de mim e não quero preenchê-lo com adubo. o amor não precisa de estimulantes.

dia 22
o dia acordou difícil mas terminou em ciranda. as coisas estão fora do lugar. elas sempre estão. no malabarismo diário há uma peça que sempre deixo cair no chão e ignoro por saber da minha incapacidade de gestão. reconhecer com lucidez a própria vulnerabilidade ajuda a aliviar. hoje toquei baião e ciranda na caixa. embora não seja meu instrumento preferido, a caixa é sóbria e preciso disso para me lembrar que ainda sei (me) conduzir. alguns chamam de caixa de guerra, já que surgiu para fazer a marcação das marchas militares. estamos na guerra.

dia 23
é natural que eu me assuste ao ver o monstro da solidão crescendo, voltando, tomando forma. preciso ficar sozinha pelo menos até o carnaval. preciso esquecer o amor e me lembrar do tempo que perdi achando que era amada. quero desfrutar de belo horizonte com liberdade. hoje o dia foi mais leve, talvez o inferno astral não esteja tão próximo assim. dormi à tarde sem culpa e adiei outras obrigações. estou procurando nos homens uma doçura que receio não existir. estou perdida em minha solidão e ela se une às possibilidades de liberdade e experimentação.

dia 25
me sinto vulnerável em rotatórias. é como se a qualquer momento alguém fosse ignorar as leis implícitas e invadir meu espaço causando uma colisão. no caso de velocidade alta, os acidentes são fatais. tenho passado pelas pessoas como quem passa por rotatórias, correndo perigo. rapidamente. não adianta seguir as leis naturais. estar no trânsito é um risco. viver é um risco e é preciso lembrar disso até quando solidão é uma pedra no sapato. não consigo deixá-la. 

dia 27
hoje tocou cazuza no bar. te pego na escola e encho a tua bola com todo meu amor. faz parte do meu show. e eu me perguntei como seria se você estivese comigo em todos esses anos. será que eu cresceria tanto ou seria sempre sua eterna criança? o que você diria se me visse hoje? ainda teria orgulho de mim? do seu lado eu seria sempre uma menina e isso não é ruim. às vezes observo as linhas da minha mão e sinto vontade de ir em uma cartomante pra saber se você ainda volta. você ainda lê machado de assis antes de dormir? ainda fantasia um mundo paralelo para além das flores do jardim? sinto que estou perdendo minha ternura. preciso de alguém que resgate a parte doce de mim.