abril

minha urgência de amor é tão grave quanto a urgência que tenho de silêncio e solidão. torço pelos erros dos outros, para que o pior venha sempre à tona, para as grandes decepções. gosto de brincar com defeitos e infidelidades, perdoá-los como se fosse Deus e oferecer sempre a ternura como retribuição. quanto maior o desprezo, mais me humilho, mais insisto no nada. aceito almas vazias como papeis em branco que tento preencher e não tenho vergonha da minha loucura. me acho tão louca quanto o homem que gritava sozinho no mar de ondina. não, não tenho vergonha do meu descontrole e deveras rio da inconstância que me consome. vivo entregue às emoções e meu coração nunca estará vazio, porém lamento o fato de que a carne tem sido o centro de tudo. peles macias são motivos para minhas tragédias. durmo sufocada pelas palavras que não digo porque me acho incapaz de dizer. sou uma péssima escritora, uso a poesia para me ajudar a construir fracassos e narrá-los depois. faço declarações de amor para que as pessoas se sintam amadas, é para isso que estou aqui. meus perdões às vezes são tão falsos porque não há o que perdoar, certas traições não me comovem justamente por serem tão previsíveis. finjo, finjo muito que sou frágil e que vou morrer caso alguém vá embora, mas minha morte não dura mais do que um dia, essas paixões não valem mais que isso. me sinto tocada por tudo, pelas flores do caminho, pelo sol e pelo corpo que dorme junto ao meu, mas pouquíssimas coisas  chegam verdadeiramente em minhas entranhas. sim, eu estou por baixo, nunca por cima, nunca no poder, sempre implorando por amores impossíveis. não me acho melhor do que a pior pessoa do mundo. dou tantas chances aos outros que para mim só sobra a rigidez, o julgo, a culpa; por isso quando sou traída me sinto menos só, menos condenada. admiro os erros como parte fundamental do que me atrai no ser humano. sou a vítima e ao mesmo tempo o observador nefasto dentro de um grande experimento divino e não ligo se riem da minha cara, eu rio ainda mais porque toda as situações às quais me sujeito são escolhas conscientes. no fundo, meus buracos são rasos ao ponto de que eu possa sair correndo quando quiser. estou fugindo de novo e só alguém com o coração tão pesado quanto o meu poderá me alcançar. e nossos pesos se afundarão juntos em uma cova porque o amor também é morte, mas viverão antes, viveremos, enquanto a parte viva do amor ainda se fizer presente. sei bem sobre o tamanho da tolice dos meus sonhos, sei que falando assim esperançosa pareço mesmo cega e é exatamente o que tenho desejado nos últimos dias, perder os sentidos. o sono tem sido um grande alento e por isso continuo, agora mais do que nunca, rogando por força e paciência para abrir os olhos e levantar da cama todos os dias.

2 comentários:

  1. Sabe quando você termina de ler um texto e descobre que foi o texto que fez uma leitura de você? Sinto-me assim. Que palavras!

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  2. Me contempla. Me define.

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