Aonde é esse aqui?

Veja o céu escuro que entra pela janela, as três estrelas, as Marias, continuam no mesmo lugar. Agora olhe no espelho, repare bem nas suas quatro pintas do lado esquerdo, abaixo do pescoço, formando um retângulo imaginário. Elas também continuam no mesmo lugar, esse nosso lugar onde eu permaneço mesmo depois de pegar três aviões para longe de você. Estou deitada sozinha no chão do quarto e nada alivia o calor infernal e o medo de não conseguir me faz suar ainda mais. Quero voltar para minha zona de conforto, quero desaparecer e me retirar em solidão, mas preciso te puxar para perto de mim, te resgatar dessa poluição que embaça os olhos e me resgatar do ciclo vicioso dos amores falidos. Preciso tentar como nunca tentei, amar em liberdade, suportar cada espinho enfiado na sola dos meus pés como se não doesse ao pisar no chão. 

Ana diz que não quer mais ouvir as mesmas histórias. Digo que também estou exausta de só mudar as personagens e que estou disposta a fazer o que for por um amor que dure e exista um pouco mais. Tenho que resistir às tentações egoístas de isolamento e fazer com que a minha vontade de tentar se torne maior do que a vontade de desistir. Mas eu só consigo pensar em tudo que nunca serei para você e no que nunca vou conseguir te dar, por isso me levanto apressada do sofá e vou até a sacada ligar para Ana. Lágrimas nos olhos, eu não sou capaz, Ana. Eu não consigo perceber a distância entre mim e ela sem que isso me corte por dentro, eu não sou tão reflexiva e tão independente assim. Sinto vontade de deitar no colo dela o tempo inteiro e pedir me protege, me protege de mim, me protege do mundo porque eu acabei de fazer vinte anos e me sinto tão frágil, tão vulnerável a tudo por ter escolhido viver assim, em amor. Su por tar, Ana, eu não consigo suportar, por mais que a vida exija isso o tempo inteiro. Ana responde com uma frase - é preciso ter estômago. Certa vez ouvi dizer que o estômago sente mais do que o coração. Me recomponho e desligo o telefone, você me observa da porta, nem imagina o que se passa. Então a gente se deita pela última vez na cama onde te senti de verdade pela primeira vez. Mas agora é diferente, você está tão longe. Mesmo assim te abraço forte, numa tentativa de absorver todos os seus medos e me fazer realmente presente em você. Choro pela segunda vez no dia, a terceira viria na hora de voltar pra casa sozinha. 

Agora você bebe sua cerveja e flerta com outras mulheres, algumas mais bonitas do que eu, mais seguras. Mas acredite, nenhuma delas tem tanta verdade, tanta entrega, tanta poesia e tanta pureza também, pois a entrega só é verdadeira se for total e pura, como chego a você. No momento em que te pedi permissão para declamar um poema depois do sexo, naquele exato momento gostaria de ter tido coragem para declamar o primeiro. Queria ter te dito, nua, sorrindo, que esse sorriso a que chamam de boca, é antes um chafariz, uma coisa louca, sou amativa antes de tudo, embora o mundo me condene - Ana Cristina César, minha preferida, outra Ana na minha vida. O sorriso é tão pesado quanto o choro, há sempre tanta coisa, e às vezes apenas uma paz silenciosa que provavelmente eu sentiria depois de te olhar de novo. Sua silhueta iluminada pela luz da lua que entrava pela janela e eu vendo eternidade em cada detalhe do seu corpo. Suas pintas me trazendo de volta à realidade. Com o corpo tão longe te espero, espero que cada dia desse mês passe voando e dentro do meu coração há uma espécie de certeza que chega a assustar. Eu não posso te agarrar com as mãos, não posso te abraçar forte nem dizer pra você senta aí que eu tô chegando. Como sempre, não me resta escolha senão escrever, e dormir quando a saudade for insuportável e me preparar para o que virá, sua presença ou ausência. Porque se você ficar eu juro que vou ser alguém na sua vida, mais do que alguém bom, mais do que ternura e gentileza, serei também dor porque serei verdade. E acima de tudo serei amor, o seu amor. 

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