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jogo cinzas às flores pela janela.
elas continuam vivas e coloridas.

me sinto destrutiva.

destrutiva como uma criança
que esmaga pequenos insetos
e espanta os pássaros que só
querem comer suas migalhas em paz.

por isso não coloque nada em minhas mãos,
eu posso estragar tudo.

certa vez o pastor do internato disse
que sou uma pessoa de luz,
que onde minhas mãos tocarem
há de fluir coisas boas
e ainda disse que o número
da tatuagem que fiz com quinze anos
possui uma cabala incrível
em sintonia com todo o resto de mim

duvido

semana passada, enquanto observava o mar
sentada sozinha nas escadas da praia
um vendedor de cerveja parou para conversar
era do interior, feirense com orgulho
me mostrou sua identidade,
da qual não me recordo mais
tampouco me lembro do seu nome
só sei que começava com "j"
joaquim, juscelino, tanto faz.
mas novamente esse papo
de que eu sou uma boa pessoa.
e se arrepiou quando disse
que eu era uma ótima filha
que amava e respeitava meus pais.
comprei uma cerveja por conveniência
mas joguei fora antes de chegar na metade.
ainda olhando o mar, agradeci silenciosamente
por aquele homem ter interrompido seu caminho
e o meu dia, para dizer coisas bonitas.
havia convicção e verdade em suas palavras
e mesmo que eu não acreditasse em todas
ele acreditava e continuava se arrepiando
enquanto me sorria e desejava coisas boas.

ainda não sei qual o poder das minhas mãos
se faço as flores murcharem ou desabrocharem
se as cinzas que jogo são veneno ou adubo

continuo debruçada na janela
jogando cinzas e esperando
para ver o que acontece

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