por que é que eu só consigo me lembrar das coisas boas?

por que diabos eu não me lembro de quando peguei o carro e fui atrás de você já que a saudade apertava tanto e eu precisava te ver de qualquer forma mas você me disse pra ir embora, porque estava com os amigos e não seria conveniente. e aí eu passei na porta da casa mais umas três vezes repetindo a rota e me sentindo perdida enquanto alguém de outro estado tentava me consolar. como é que eu pude me esquecer de quando te vi com outra mulher antes mesmo de selar o nosso fim e aquilo foi o maior abismo, eu quis te matar e ir junto mas apenas me escondi, me escondi em um lugar que ainda desse pra te ver porque eu queria, de uma vez por todas, te odiar, te repugnar, materializar em raiva a humilhação que você me fez passar. no fundo, a humilhação era o de menos, o coração sempre me importou mais. mas por que é que eu não me recordo de você indo embora às pressas da minha casa cheia de arrependimento por um dos melhores beijos que você tinha me dado até então. e eu queria que você ficasse na cama mas você levantou como que acordando de um sonho e impaciente me deixou lá, sozinha com meu álcool e a televisão coberta de pisca-piscas que eu coloquei pra te receber. e  eu não sei por que, mas já me esqueci de quando você me deixava falando sozinha e  de quando chegava na minha casa às três da manhã depois de desfrutar de toda sua independência noturna, você ia porque sabia que eu te receberia nos meus braços, sempre, com o maior amor do mundo. 

esse papo de que o amor não funciona na teoria não cola comigo. não cola porque sou escritora, mesmo que eu esteja longe de concretizar qualquer materialidade que me consolide como tal, sou escritora do fundo de minha alma. e eu sei que você gostava do que eu escrevia antes de me conhecer e que quando você passou a ser meu assunto principal você parou de me ler por medo, medo das injúrias, das verdades, medo do meu amor intenso e louco. mas se você quiser que eu fique por perto vai ter que aprender a suportar o peso das palavras. e ter coragem pra ser exposta assim, e se deparar com tudo que você não quer ouvir. e tem mais, eu não vou abrir mão dos detalhes, mesmo que você me diga que são desnecessários, os detalhes são a essência do texto, o que há de mais sagrado. seja razoável, meu amor, não repudie minha fala exagerada, minha impulsividade, minha incapacidade de permanecer em silêncio quase sempre. veja bem, se não fosse pela escrita você acha que eu te receberia de volta? se eu não tivesse descarregado em escritos toda a dor que você me fez passar, você acha mesmo que eu estaria assim tão leve hoje? seja grata, seja grata à toda e qualquer manifestação verbal que tira da memória as coisas ruins, que se apodera das mágoas e dos rancores. e por favor, me dê motivos para te escrever coisas bonitas, me dê motivos em forma de momentos bonitos.

porque eu me lembro como se fosse hoje do nosso primeiro encontro no banco daquela praça e você me beijando na metade da boca antes do nosso próximo encontro na mesma noite. e do nosso primeiro beijo em público, você abrindo uma exceção. e depois de quando eu disse pra você não me procurar e você me procurou, me fazendo sentir a maior alegria do mundo. e de você dançando me olhando enquanto eu trabalhava no bar daquela festa, servindo as pessoas e te observando de longe, como quem contempla a beleza e o amor em forma de gente. e a gente se abraçando na porta do hospital e o sol nascendo e a noite fria e o almoço no trabalho e a visita no trabalho e os beijos no carro, e minha mão na sua perna. e o filme no sofá e o cachorro latindo e você aparecendo de novo assim pra roubar todo meu juízo e me afastar de todas as outras pessoas que não são você e por isso não servem pra mim. mas vê se fica dessa vez, fica e me dá mais lembranças boas, fica e se eterniza aqui dentro. porque as coisas ruins são todas perdidas no tempo, mas as boas sempre deixam saudade e fazem com que eu te queira como te quero agora, pertinho de mim.

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