"Porque o caminho todo é uma ladeira solitária e só desbravamos e pertencemos a uma cidade quando andamos por ela sem medo, sem companhia, sem qualquer destino certo e medindo com os olhos palmo a palmo o coração palpitando, as ondas quebrando longe..." Ana Luíza Andrade (para mim)

minha solidão não é mais virgem como quando chegou dentro da mala
quis sair de si, transitar entre a cidade alta e a cidade baixa
andar por cada ladeira que por direito lhe pertencia

minha solidão riu em silêncio e com sede esperou o mar
foi derrubada pelas ondas e se afogou na violência da maré
mas saiu andando feliz, livre, distraída e hipnotizada

pela liberdade e pela coragem, sentiu orgulho a solidão

minha solidão ficou sem ar feito criança e esvaziou o salão quando a dança começou
fechou os olhos desligando as luzes e morou por um instante onde sempre quis estar
no intervalo entre as orelhas e o ombro daquela que lhe trouxe ali, daquela que lhe fez ficar

minha solidão beijou a mulher mais linda da cidade e voltou pra casa apavorada
jurando n u n ca m a i s sair de lá
mas cedeu três dias depois quando a moça bateu na porta e com um convite nos olhos
disse que a saudade enfim aparecera e que por favor voltasse para repetir a dança

e dançaram, mais uma vez, a última vez, a música que dizia
c'est impossible ne adorer pas