estamos no meio do bar e digo bem alto "eu te amo"

quase um grito, olhando no fundo dos olhos dela com minhas veias pulsando sangue e raiva. "fala baixo" - pede em tom de ordem e retraidamente desvio o olhar para o chão, foco no movimento dos meus pés que vem e vão no ritmo da música baixa ao fundo. o saxofone faz um solo meio blues e a letra me parece em francês, mas não consigo decifrar ao certo. já não nos lembramos mais da declaração de um minuto atrás. acho que ela não entendeu o que eu disse, talvez eu deva falar mais baixo e mais devagar. ou talvez ela tenha escutado e entendido muito bem mas preferiu deixar de lado, intocar na ferida. para a razão, o amor é quase nada. voltamos para casa e ela está com insônia, vira na cama de um lado para o outro enquanto crio coragem para dizer que preciso de ajuda. cinquenta minutos se passaram e sinto como se não houvesse mais ninguém nesta cama além de mim. o corpo dela se movimenta mas o coração é impotente e dada a imponência dentro do meu peito quero dizer "benzinho, me ajuda a não desistir de nós, me dá mais covardia porque qualquer dia eu crio coragem e vou embora sem pedido de desculpa sem volta pra mim sem espero que não seja tarde demais." mas ela está imóvel, acho que já dormiu, não quero que a insônia retorne. fecho os olhos e o peso das palavras sobre o meu corpo me esquenta do frio. e agora já amanheceu e o sol descortina os nossos defeitos e revela quem realmente somos mas tento sorrir porque é segunda-feira e se eu não sorrir hoje provavelmente não sorrirei pelo resto da semana. esqueço o pedido de ajuda, não é mais domingo à noite e a lua já não está está presente para amolecer os corações. me ajoelho enquanto a água quente do chuveiro escorre pelos cabelos molhados e peço aos astros, os mesmos astros que a trouxeram para mim junto aos ventos de maio, para que eu continue sendo covarde, engolindo seco o não dito e esperando por uma tentativa verdadeira de felicidade. eu prefiro acreditar que ainda não estou pronta para matar o encanto. viva, viva-me, viva-se, vivamos nós enquanto ainda há tempo.