Mariposa

Há uma borboleta negra morando no meu quarto.
Confesso que não notei quando chegou, nem como.
Se foi rápido ou devagar, de repente ou com cuidado. 
Se entrou pela sacada da frente ou do fundo,
pela janela do banheiro ou pela porta que abri sem perceber.

Senti medo.
Não gosto de outras borboletas senão das que passeiam
coloridas pelos jardins, felizes. Inofensivas.
Borboletas negras me assustam de tal modo
que o afastamento é imediato.

Fiquei, apesar do medo.
Encará-la de frente, mesmo sem olhar nos olhos
era o maior desafio da minha existência até então.
Enfrentei meu medo da forma mais covarde possível,
quase como uma criança que só coloca os olhos para fora do edredom
e espera encontrar o monstro no escuro indecifrável.

Ignorei todas as vezes que um borrão negro
de relance me invadiu os olhos.
Até que o tempo e a própria borboleta me mostraram
que asas negras também são asas
que asas negras também alçam voo.

Hoje acordei com a impressão de normalidade. 
De paredes novamente limpas donas de um de branco perfeito.
Mas conforme o dia foi passando, andando pelo quarto percebi, com espanto, 
que ainda estava ali, escondida num canto qualquer.
Encarei-a, dessa vez com firmeza e fixamente. 
Não mais com olhos de infância e medo.

Deixei que me invadisse como invadiu meu quarto 
e disse baixinho - fique o quanto quiser.

A borboleta negra é minha solidão.

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