"A vida é agora, aprende. Ainda outra vez tocarão teus seios, lemberão teus pelos, provarão teus gostos. E outra mais, outra vez ainda. Até esqueceres faces, nomes, cheiros. Serão tantos. O pó ainda se acumula todos os dias sobre as emoções". Caio F.

Pedaço de mim,

Tenho jogado minha saudade em um poço fundo, sujo, onde me afogo todas as noites. E prefiro me afogar do que continuar nadando incessantemente em direção ao barco furado que é o teu amor. Inexistente. Primeiro me surpreendes, um abraço no meio do aeroporto, uma hora de voo e eu pude finalmente me sentir segura de novo e sentir o firmamento mesmo diante de tamanha novidade. Depois, outras surpresas, me tiras o chão uma, duas, três vezes. O silêncio é uma forma de tomar distância. Adotar a monotonia é escolher a posição de observador que prefere evitar qualquer tipo de envolvimento com o objeto admirado. O que não significa que a escolha se concretizará na prática de forma eficiente. No meu caso, passei longe do planejado e me envolvi mais, muito mais do que o curto tempo e a longa distância permitiram. Há euforia na minha tristeza e minha alegria é calma como uma canção de ninar. Enquanto o amor exigir pré-requisitos, escadas infinitas, provas concretas, eu prefiro não amar. Enquanto o amor for inalcançável, eu prefiro não alcançá-lo. O meu amor vive aqui, dentro de mim, puro, latente, real, acessível. Existindo e dando forma à toda minha coragem de ser alguém. Coragem de ser de alguém. Somos como uma madrugada de segunda-feira, deserta. Eu correndo, mudando caminhos, furando sinais e te esperando na rua vazia, mesmo que na contramão. Nada. Estou de novo na minha cama, cheirando a amaciante, o lençol branco impecável anunciando que tudo continua como eu deixei. Penso em te ligar para dizer que cheguei bem, mas permaneço inerte até que o sono chegue e faça de mim um novo dia. Várias distâncias te afastam de mim. Se és mesmo pedaço do que sou, me deixa te amputar ou aceita a beleza do meu excesso. Estendo bandeira branca por dez segundos de paz e me canso, me calo. Desisto violentamente de tudo que não há entre nós. E dessa situação fantasiosa, separada por milhas invisíveis que você criou, eu não quero e não espero mais nada. Somos pequenos demais para sobreviver assim.

O agora nunca será. 

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