chorar pra dentro

Se chora pra dentro quando se olha pelos poros do corpo e não se enxerga nada. Quando a resposta não aparece nem dentro nem fora de si. Chorar pra dentro é deitar na cama com o corpo em posição meditativa, com as mãos calejadas, mas ainda assim receptivas, prontas para receber a energia que cura. É sentir o poço de lágrimas se formando nos dois olhos - que não é rio porque tem sal e não é mar porque não tem onda - inerte. Apenas poço, poço onde se mergulha quando não se encontra outra solução e a fraqueza grita querendo sair. Chorar pra dentro é continuar piscando na mesma intensidade e esperar que a lágrima não caiba mais, para que escorra perifericamente por cada saída possível desse labirinto colorido. E percorra a bochecha, e preencha cada curva da orelha até cair no tecido morno do travesseiro, que em vão, tenta apoiar a cabeça. Algumas, as que saem pela periferia interna do olho, em direção ao centro da face, contornam o nariz, e parte entra pela narina, outra parte toca os lábios mas não deixa gosto salgado porque tudo permanece imóvel, inclusive a língua dentro da boca. E desce pelo queixo, busto, umbigo, até que o líquido lacrimal tenha se diluído por completo. Chorar pra dentro é tentar manter o compasso da respiração e inevitavelmente perder o controle, não só disso, mas de todo o resto, até botar tudo pra fora. Até o choro.

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