eu, parede

São tantas cartas de amor que eu esqueço de me corresponder. Hoje eu só quero dizer que quero chorar e que me cansei de morar onde estou, onde sou. As paredes estão cheias de sujeiras e vestígios do que já deveria ter passado. Nessas horas é preferível não ter passado, mesmo que ele seja identidade e que tenha sido o guia até aqui. Ou tenha desviado do caminho. Agradeço à bendita tecnologia que me permite escrever de olhos fechados e intensificar ainda mais o sentimento. Como que num discurso interno, digo pra mim, grito pra mim, tento me convencer de tanta coisa que já nem sei mais. O lar da alma não é como o lar do corpo e não dá pra mudar quando o cansaço vem, quando se enjoa do lugar, quando as paredes encardem e o chuveiro não fecha direito e surgem goteiras na sala. Vou ligar para o frete e pedir para levar todas as lembranças, todas as dúvidas, e me levar embora também. Quinta-feira já passou e eu ainda não sei o que é paz. Se quero paz, se quero que me deixe em paz, se quero algo que me tire o sossego. Sei pouco demais sobre o que me cerca e me preenche. Me esvazia. Uma hora eu acerto e cubro o buraco que cavei em mim. Uma hora eu acerto e faço alguém feliz e me faço feliz por consequência. Porque alegria verdadeira é alegria compartilhada. E a tristeza? É preciso dividir para que exista de fato? É necessário compartilhamento para que haja verdade? Ou será que a verdade mora sozinha dentro do peito de quem sente?

Um comentário:

  1. Acho que assim como a felicidade, a tristeza é um estado. Você tem que se manter feliz, assim como você só fica triste se alimentar. Em proporções diferentes (e intensidade tb) a base é a mesma.

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