cortejo de despedida

noite mal dormida.
acordo às quatro da manhã
corpo molhado de suor e sem roupa
calor, sede de água, sede de poesia.
penso nas merdas que eu te disse enquanto estava bêbada
e no quanto eu queria que você ficasse.
vou ao banheiro lavar o rosto e me deparo com um monte de cinzas
do incenso que acendi, da droga que fumei
e desse nosso louco amor que já nasce morto

te prometi uns versos,
escrevo no papel
porque você escreve em mim
aqui dentro
os versos esperam, dentro do bolso
que suas mãos os agarrem com força
esperam encontrar suas pupilas

quero morar nos seus olhos, digo
você ri e diz que eu sou intensa demais
- e essa sua indiferença,
ela existe por dentro também?
- é cada pergunta que você me faz..

me explica, morena
quem foi que nos uniu
pra nos separar assim?
quem é que se encontra
só pra se despedir?
por que a vida é assim
tão engraçada
tão louca
tão breve
e efêmera?

por que eu cheguei tão tarde?
logo eu que nunca me atraso.
me explica como eu posso
querer te dar minha vida
se seu corpo ainda me é
totalmente estranho.

não precisa responder
só fica calada
e deixa eu me esconder
no seu pescoço.

você ainda quer saber como eu sou?

sinto o coração latejar cada vez que respiro
mãos pequenas como as suas cavam grandes buracos no meu peito
de longe posso parecer vazia e feliz, e às vezes acredito que sou
hoje acordei com uma tristeza morna, e uma saudade do que viveríamos
queria apertar seus pulsos com toda a minha força,
sentir suas veias pulando em mim e pedir - fica... fica? fica comigo!
sabe, vezenquando mexo nos cabelos de um jeito bonito e dou um sorriso distante
porque alguém como você pode sempre estar observando. de perto, ou de longe
não sei fingir, definitivamente. sou daqueles enigmas que já vem prontos, decifrados.
quase um amor em forma de cápsula, é isso que eu sou.
vivo à procura de alguém que queira morrer de overdose de mim, ou de amor, tanto faz.
mas morrer pra continuar vivendo, sabe? do jeito mais real que se possa fazer isso - viver.
por dentro sou mais infantil do que minha gata que rola na grama agora.
mas por fora também não faço questão de me mostrar madura.
acho que a grandeza das pessoas tem que ser percebida, e não exposta, escancarada.
tal qual um perfume que só se sente num abraço.
o mesmo abraço que eu queria ter te dado ontem à noite para que você sentisse meu perfume,
e decidisse nunca mais sair de perto de mim.

você olha para a tela e ri
você ri das minhas palavras
você ri enquanto lê
e eu só penso em uma maneira
de escrever algo que  te convença
convencer a que? não sei
ficar, voltar, amar, sentir, viver.

ficar comigo
voltar para mim
amar comigo
sentir comigo
viver por mim

te espero o tempo que for, morena.
te espero pra saber quem você é,
pra conhecer suas manias
te espero porque há alternativas
mas eu não quero outra solução

eu ainda vou morar nos seus olhos.

4 comentários:

  1. Você é incrível! Eu amo os seus textos. Parabéns de verdade.

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  2. Eu já tinha lido, mas no dia não tinha encontrado a palavra. Hoje, uma chegou mais perto: breathtaking. Não encontrei no dicionário daqui, mas mesmo esta estranheza me pareceu pertinente.

    Espero que você expulse as lágrimas e encontre, entre íris e pupila, um cantinho que te acolha nos olhos em que você quiser morar.

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