"estou nua de corpo e alma, mas quero a escuridão que me agasalha e me cobre, não, não acenda a luz." c. lispector

Última noite do ano. A despedida de um amor. Artigo indefinido, modo vago, impreciso, que fez questão de ser assim. Pés gelados, olhos vermelhos de sono. Desligo a música. Tem início a nossa dança. A cama alta e estreita contrasta com a largura do passo que dou em direção ao fim. Abraços. Sua boca na minha e a saudade antecipada já aperta o peito. Uma parte dela se entrega, o resto é puro confronto comigo. Ignoro a parte rebelde. Chego ainda mais perto. O ar que elimino entra pelo seu nariz. E depois pelo meu. Respiramos o mesmo ar. Constato que nela também bate um coração. O momento é grande e ela insiste em ficar na pequenez. Dou um sorriso raso que me expõe até as vísceras. Ela sorri de volta. Quando me toca eu saio de mim. Sinto a falsa impressão de reciprocidade. Deita no meu peito e se abriga. Faço carícias delicadas até que o gesto se torne parte do meu metabolismo. Aponta para o próprio umbigo e fecha os olhos. Tiro a roupa, encosto meu corpo no dela. Ela não percebe o quanto estou entregue. Visto a roupa. Termino de ler um livro enquanto vigio seu sono. Sinto vontade de dizer que a amo. Quero me derramar em lágrimas mas me mantenho firme. A falta se faz presente mesmo com a presença diante dos meus olhos. Vê-la dormir é mais sublime do que minha própria existência. Me atento aos mínimos barulhos. Confiro a todo instante se está mesmo em estado de repouso. Chego bem perto. Minha visão contempla o paraíso. Não resisto, beijo sua face devagar antes de retomar a leitura. A noite finalmente acorda. A moça abre os olhos. Eu acordo para a vida. Meu beijo diz bom dia e meu abraço diz adeus. Quero pedir para que fique comigo ou para que me leve junto. Mas permaneço calada. Ela entra no carro. Seu até logo deixa um buraco. Penso no quanto minha intuição falhou. Fica uma sujeira, uns pedaços de mim pelo chão. E um vazio. Um vazio insuportável que indubitavelmente terei que suportar sozinha.

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