"escrevo porque é a única solução possível" gicovate, paula

Em uma tarde chuvosa sentávamos nos bancos de madeira de uma praça solitária. No pequeno rádio portátil, Alceu cantava "borboleta", eu te abraçava forte, você me pedia para que saíssemos logo dali, e por trás dos seus olhos pretos havia todas as interrogações possíveis que não fazíamos questão de responder. Tanta liberdade nos fazia esquecer que não passávamos de prisioneiros do mundo. Naquela época não havia ausência nenhuma para preencher e esse buraco no meu peito ainda inexistia. Se você me visse hoje provavelmente diria - aquieta seu coração, minha menina. E é exatamente o que me digo agora. Não surte o mesmo efeito, mas só de te imaginar na minha frente falando isso daquele seu jeito terno e  protetor, sinto que a velocidade dos meus batimentos diminui consideravelmente. Eu digo em pensamento - respira coração, aguenta firme que vai ficar tudo bem. Está tudo bem agora. E te agradeço, ainda em pensamento, por me acalmar mesmo de mãos atadas, mesmo tão longe dos olhos. Uma metade nunca perde de vista a outra metade, caso contrário deixariam de existir. Além do mais, eu nunca te perderia de vista, nem mesmo se eu fosse inteira. Alceu continua cantando no rádio e a chuva cai dentro de mim. Falta a praça, o banco, a fonte, as árvores. Falta o abraço, o cheiro, o sorriso, o medo, a cumplicidade, o toque, o beijo. Faltam palavras. Falta você comigo. Sobra você em mim.

Um comentário:

  1. Falta você comigo. Sobra você em mim.

    como pode, né?
    que coisa mais linda

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