"durante toda a minha vida foi assim, eu buscando algo em que pudesse me agarrar como quem está prestes a morrer afogado" garcia, fernanda.

Finjo que sou o mundo para que eu possa sobreviver, tal qual um camaleão. Digo que sou tão infinita quanto a minha alma, mas a verdade é que sobra alma em mim. Saio distribuindo as sobras pela cidade e continuo me sentindo pequena. Não sou grande, nunca fui. Beijo mil bocas para que o coração pense que ninguém é único dentro de mim, mas ele continua disparando sem minha permissão. Permitir é verbo intransitivo, é inevitável, quase como ser e amar. A última vez que me senti vazia foi quando um sorriso sugou toda minha essência, sem permissão, claro, mas tão naturalmente quanto o sangue que corria em minhas veias. Me doei ao sorriso, e de repente me senti vazia, um vazio bom, como se livrar do pesar de existir. Estou sendo o oposto de mim, estou sendo meu caos, para que um dia, não sei de que forma, possa sentir de novo esse vazio. Sei que agora sou um mar de impurezas, sei que meu corpo não tem sido templo de nada nem de ninguém. Mas meu coração continua puro, eu continuo querendo alguém para passar o resto da vida. Só me dá um tempo, deixa eu conhecer o lado raso do viver, deixa eu ficar um pouco na superfície, porque ser de verdade o tempo inteiro é doído demais. Deixa eu ser abismo, deixa eu ser silêncio. Se é loucura é viver com o coração aberto, eu prefiro viver em um hospício do que me render à sanidade das noites goianienses. Não é hipocrisia, só tô descansando de mim e das pessoas e de tudo que faz doer. Sou covarde, tenho meus traumas também, da última vez que me deixaram, fiquei com um medo danado de ser tocada de novo. Depois não sobra ninguém pra cuidar do meu coração, e acredite, não é fácil cuidar de um coração.