quatro de outubro de dois mil e dez

Minha atual leveza é um paradoxo em meio a tantas palavras pesadas que sempre teimei em dizer, e toda essa suavidade me traz à tona seu toque em mim. Nunca fui de vidro mas também nunca importei que você me tratasse como tal. Afinal, eu realmente estava prestes a quebrar. E quebrei. Quebrei porque meu material não era resistente o suficiente para suportar tantas variações, tanta carência, tanta ausência. Reconheço que você tentou juntar cada pedaço meu, cada mínimo caco, para que eu me refizesse e pudesse viver de novo da maneira que fui ensinada. Mas eu quase não aguentei, amor. Só aguentei porque te fiz colar minhas partes com seu próprio sangue. Me livrei da bomba-relógio que havia dentro da memória e explodia todos os dias. Por favor entenda, se agora estou leve, não é por haver menos de você em mim, é por ter transformado seus retalhos em asas que me tornaram capaz de voar. Espero que você possa fazer o mesmo com o pouco que sobrou desse seu maior amor, e que nossas asas nos levem a um encontro nos céus. Eu me sentiria em casa, pois foi onde sempre estive quando seu toque me embalava. Como se eu fosse de vidro.

do desconforto de viver

Meu centro de massa fica no coração
Quando há alguma coisa errada com ele, mal consigo parar em pé e passo os dias procurando algo em que eu possa me escorar 

Eu preciso
Começar a escrever na terceira pessoa para criar uma distância saudável das minhas próprias dores
Comprar uma cama maior
Apagar o número da moça da agenda do meu celular

Eu quero alguém 
Que seja como um chá doce em uma noite de insônia, que acalma e esquenta por dentro 
Que me dê até o que lhe falta
Que me faça sentir e ir além
Além dos poréns, dos desdéns, dos ninguéns
Além de mim

Restos
Todos os restos que eu tenho recolhido de vocês não tem sido suficiente
Por isso desmarquei todos os encontros da semana sem nenhuma explicação

Viver não é mais confortável
Sentir é a lei do mais forte
Não sei se por falta de sorte
Há em mim sentimento demais

Mas sou fraca, vulnerável
Às vezes imploro pela morte
Ela diz que minh'alma tem porte
E que não sei o quanto sou capaz


"escrevo porque é a única solução possível" gicovate, paula

Em uma tarde chuvosa sentávamos nos bancos de madeira de uma praça solitária. No pequeno rádio portátil, Alceu cantava "borboleta", eu te abraçava forte, você me pedia para que saíssemos logo dali, e por trás dos seus olhos pretos havia todas as interrogações possíveis que não fazíamos questão de responder. Tanta liberdade nos fazia esquecer que não passávamos de prisioneiros do mundo. Naquela época não havia ausência nenhuma para preencher e esse buraco no meu peito ainda inexistia. Se você me visse hoje provavelmente diria - aquieta seu coração, minha menina. E é exatamente o que me digo agora. Não surte o mesmo efeito, mas só de te imaginar na minha frente falando isso daquele seu jeito terno e  protetor, sinto que a velocidade dos meus batimentos diminui consideravelmente. Eu digo em pensamento - respira coração, aguenta firme que vai ficar tudo bem. Está tudo bem agora. E te agradeço, ainda em pensamento, por me acalmar mesmo de mãos atadas, mesmo tão longe dos olhos. Uma metade nunca perde de vista a outra metade, caso contrário deixariam de existir. Além do mais, eu nunca te perderia de vista, nem mesmo se eu fosse inteira. Alceu continua cantando no rádio e a chuva cai dentro de mim. Falta a praça, o banco, a fonte, as árvores. Falta o abraço, o cheiro, o sorriso, o medo, a cumplicidade, o toque, o beijo. Faltam palavras. Falta você comigo. Sobra você em mim.

"durante toda a minha vida foi assim, eu buscando algo em que pudesse me agarrar como quem está prestes a morrer afogado" garcia, fernanda.

Finjo que sou o mundo para que eu possa sobreviver, tal qual um camaleão. Digo que sou tão infinita quanto a minha alma, mas a verdade é que sobra alma em mim. Saio distribuindo as sobras pela cidade e continuo me sentindo pequena. Não sou grande, nunca fui. Beijo mil bocas para que o coração pense que ninguém é único dentro de mim, mas ele continua disparando sem minha permissão. Permitir é verbo intransitivo, é inevitável, quase como ser e amar. A última vez que me senti vazia foi quando um sorriso sugou toda minha essência, sem permissão, claro, mas tão naturalmente quanto o sangue que corria em minhas veias. Me doei ao sorriso, e de repente me senti vazia, um vazio bom, como se livrar do pesar de existir. Estou sendo o oposto de mim, estou sendo meu caos, para que um dia, não sei de que forma, possa sentir de novo esse vazio. Sei que agora sou um mar de impurezas, sei que meu corpo não tem sido templo de nada nem de ninguém. Mas meu coração continua puro, eu continuo querendo alguém para passar o resto da vida. Só me dá um tempo, deixa eu conhecer o lado raso do viver, deixa eu ficar um pouco na superfície, porque ser de verdade o tempo inteiro é doído demais. Deixa eu ser abismo, deixa eu ser silêncio. Se é loucura é viver com o coração aberto, eu prefiro viver em um hospício do que me render à sanidade das noites goianienses. Não é hipocrisia, só tô descansando de mim e das pessoas e de tudo que faz doer. Sou covarde, tenho meus traumas também, da última vez que me deixaram, fiquei com um medo danado de ser tocada de novo. Depois não sobra ninguém pra cuidar do meu coração, e acredite, não é fácil cuidar de um coração.

"estou nua de corpo e alma, mas quero a escuridão que me agasalha e me cobre, não, não acenda a luz." c. lispector

Última noite do ano. A despedida de um amor. Artigo indefinido, modo vago, impreciso, que fez questão de ser assim. Pés gelados, olhos vermelhos de sono. Desligo a música. Tem início a nossa dança. A cama alta e estreita contrasta com a largura do passo que dou em direção ao fim. Abraços. Sua boca na minha e a saudade antecipada já aperta o peito. Uma parte dela se entrega, o resto é puro confronto comigo. Ignoro a parte rebelde. Chego ainda mais perto. O ar que elimino entra pelo seu nariz. E depois pelo meu. Respiramos o mesmo ar. Constato que nela também bate um coração. O momento é grande e ela insiste em ficar na pequenez. Dou um sorriso raso que me expõe até as vísceras. Ela sorri de volta. Quando me toca eu saio de mim. Sinto a falsa impressão de reciprocidade. Deita no meu peito e se abriga. Faço carícias delicadas até que o gesto se torne parte do meu metabolismo. Aponta para o próprio umbigo e fecha os olhos. Tiro a roupa, encosto meu corpo no dela. Ela não percebe o quanto estou entregue. Visto a roupa. Termino de ler um livro enquanto vigio seu sono. Sinto vontade de dizer que a amo. Quero me derramar em lágrimas mas me mantenho firme. A falta se faz presente mesmo com a presença diante dos meus olhos. Vê-la dormir é mais sublime do que minha própria existência. Me atento aos mínimos barulhos. Confiro a todo instante se está mesmo em estado de repouso. Chego bem perto. Minha visão contempla o paraíso. Não resisto, beijo sua face devagar antes de retomar a leitura. A noite finalmente acorda. A moça abre os olhos. Eu acordo para a vida. Meu beijo diz bom dia e meu abraço diz adeus. Quero pedir para que fique comigo ou para que me leve junto. Mas permaneço calada. Ela entra no carro. Seu até logo deixa um buraco. Penso no quanto minha intuição falhou. Fica uma sujeira, uns pedaços de mim pelo chão. E um vazio. Um vazio insuportável que indubitavelmente terei que suportar sozinha.