medo da chuva

Quando a claridade do céu invade o quarto, mesmo que não seja dia, mesmo que não haja lua cheia, é um aviso. Ele está dizendo que a qualquer hora vai desabar em lágrimas, ou chuva. Eu tenho medo, tranco a porta para abafar o barulho do vento. Penso que talvez meu medo da chuva seja reflexo de um temor interno, eu temo a queda, a exposição verdadeira, o desmoronamento da alma, eu temo não aguentar por dois. Contudo, no fim, acho tão bonita a rendição do céu, acompanhada da melodia cantada dos pingos d'água, das folhas das árvores que se encostam, das telhas que se banham. E quando a tempestade acaba e eu olho para cima, as coisas estão como sempre estiveram. O doce sorriso azul nos observando de longe. Eu nunca vou te abandonar. Posso até me render, posso até chorar, posso até cantar. Mas eu nunca vou deixar você. E quando tudo acabar, o amor vai rir de nós, e para nós, do lugar onde sempre esteve. Aqui, aí dentro.

o que não se ganha por amar

- Que foi?
- Tava pensando.
- Pensando no que?
- No quanto somos sustentados pela loucura, não faz sentido continuar insistindo nisso.
- E precisa fazer sentido?
- Não. Mas eu tenho o direito de desistir.
- Você vai botar tudo a perder.
- Como, se antes disso já estávamos perdidos? Somos frágeis desde o início.
- É, o amor tem dessas coisas. Já nasce frágil e está sempre por um triz. Continuar ou não, depende única e exclusivamente da vontade que sentimos de estar perto um do outro.
- A minha vontade se perdeu.
- Então eu te perdi. Desde o dia em que isso começou a acontecer.

Me deu seu melhor beijo e disse que era o último. Falou que não era questão de perda, pois nunca pertenceria a ninguém, mesmo que um dia se apaixonasse de verdade.  Eu disse que o pertencimento não era uma escolha, que quando a gente se apaixona entrega as algemas do coração, mesmo sem querer. 

- Você não sabe de nada, benzinho.. tudo é questão de escolha.

Saiu rindo sutilmente da minha pieguice.

Desde aquele dia não consegui parar de pensar - como pode um escorpião tão racional?

Eu queria ser picada, infectada pelo veneno das coisas exatas.
Contudo, eu morreria.
Por isso o deixei ir, sem inveja, sem saudade.

o próximo outono já foi

Eu quero que você desapareça com essa covardia e com todo esse amor que eu não consigo ver. Eu não quero pegar a doença da burguesia, eu não quero feder. Filhos únicos são infelizes mesmo, mas que eu tenha consciência da minha própria infelicidade ao invés de viver esperando pela alegria que nunca vai chegar. Utopias me dão sono, a vida para mim é agora, girl. Amanhã tá longe demais. O hoje é como uma fotografia, é o instante, o momento sublime, cada vez que você aperta o botão da câmera já era, cada vez que o ponteiro do relógio gira, já foi. Não é como um filme que você pode assistir, apertar o pause, voltar à cena anterior, pular o tédio, dar stop e depois assistir de novo. A gente só vive uma vez, eu não aguento mais repetir isso. Eu quero a América Latina na palma da minha mão, eu quero perder a razão toda noite dentro de um quarto, sentir o sol invadindo tudo e não ser invadida sozinha, por ter alguém do lado. Eu quero que esse alguém seja você, baby. Mas se for assim, você tem que viver para mim. E aceitar que ninguém nunca vai te compreender, desvincula essa sua felicidade da felicidade dos outros. Cada um é cada um, ímpar. Você vive, eu vivo, eles vivem, nós vivemos. Se há amor, há partilha, quem compartilha tem sempre o coração cheio. Vem comigo, vamos sem destino, vamos ser felizes. Antes que seja tarde demais para apreciar a fotografia.

1987

O banho quente nas manhãs frias. Os dez minutos antes do despertador tocar. O cigarro no fim. Eu nunca quero que você acabe. Eu gosto da sua companhia e do que ela me causa. Serei feliz se os primeiros forem mesmo os últimos. E serei mais feliz ainda se você decidir ficar mais uma noite. E outra, e outras. Até o prazo acabar. Infelizmente a vida tem data de validade. Não fosse assim, eu deixaria você ir só para te fazer voltar todos os dias. Não temos tempo a perder, faz logo um pacto comigo, casa comigo, me dá seu coração. Me tira da preguiça de viver que eu te ensino a ser feliz. Eu aceito a monotonia cotidiana, mas só se for a dois. Tem gente que compartilha a solidão, eu prefiro compartilhar o amor. Mesmo que seja sinônimo de montanha-russa falta-de-ar lágrimas-sofridas. É o meu jeito, foi assim que aprendi a caminhar. Eu preciso de alguém pra me dar a mão.

bloco da solidão

Em pensar que noutros carnavais já desfilamos no mesmo bloco
E que antes de você a solidão já foi uma boa companhia
Já não me prendo a ninguém
Descobri que a única prisão imposta ao ser humano é o ódio
Mas ainda quero amor, como sempre quis desde que vim ao mundo

Dê-me um pouco de amor e dar-te-ei meu tempo, meu carro, minha casa, meus beijos, meu corpo, meus poemas
Promessas, momentos, carinhos, presentes, dinheiro, paixão, cartas, nada importa
Quero mais que isso

Só o que peço é amor
Dê-me um pouco de amor e dar-te-ei a minha vida

Hoje eu precisei de proteção e mais uma vez tive que inventar meus próprios escudos
Quero mais que isso

Quero ausências que virem inexistências
E uma mala onde caiba tudo
Os últimos desejos, as inúmeras despedidas
E o meu passado torto que vive me tirando da linha
Quero mais que isso

Que o vazio me mate de vez
Porque viver assim é pior do que morrer