sobre a melodia silenciosa da solidão

Me livrei dos meus escritos uma vez na vida. Até hoje me arrependo e tento recompor em pensamento cada uma da palavras que rasguei. Foi durante minha pequena estadia no colégio interno, uma das preceptoras me convenceu de que tudo aquilo era impuro demais para continuar nos meus cadernos, nas minhas gavetas, em mim. Entreguei tudo a ela e me senti mais leve, com a impressão de que tinha renovado a alma. Ela não sabia e eu também não, mas o silêncio não cura impurezas. Não falar para fora nos faz falar para dentro. De um jeito ou de outro a coisa tem que sair. É assim com o amor, com o sofrer, com o dizer, com o viver. Vezenquando vivo para dentro e me sinto bem com isso. E assim foi, naquela época, quando passei a dizer tudo que sentia só para o meu inconsciente. Transformando os gritos em suspiros, emudecendo o próprio coração. Hoje eu entendo o que Cazuza quis dizer com a "pureza impossível". Não há nesse mundo quem não seja impuro. É o gênero, número e grau de impurezas que nos difere dos outros. No fundo, ser puro é um tédio. Ser puro é ser ninguém. No fundo, ser puro é não ser.

Aqui vai um dos meus textos preferidos, que estava no acervo do qual me livrei. Não lembro exatamente cada vírgula do original e lamento muito por isso. Mas era mais ou menos assim:

Como uma música com a qual você se simpatiza quando escuta pela primeira vez. E quando para pra analisar, vê que seus instintos não te trairam, já que tal letra e melodia formam o conjunto mais perfeito que seu corpo já presenciou. Não só o corpo, mas a alma, o coração. E agora, mesmo que você queira se livrar dela, será impossível, pois ela está em você. Desde o dia em que invadiu seus ouvidos te fez recompor em silêncio cada nota, cada som. Mesmo que você não saiba o nome, ou de onde veio, é tarde demais para desafinar. É tarde demais para sair do ritmo e errar o tom. Você não canta, nem toca, nem ouve. Você é a música.

2 comentários:

  1. sem palavras pra esse post Bárbara. Lindo!

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  2. a melhor melodia para esses sentimentos e alguns outros, pra mim, é "Dogs", Pink Floyd. São dezessete minutos de arrepios e ó meu Deus, estão tirando as palavras da minha boca - ou do meu peito.

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