Querido B.,

     Há muito tempo não lhe escrevo, fruto dessa minha vontade de não querer voltar pra você nem em pensamento. Ainda não decidi o que fazer com aquele presente que escolhi com tanto carinho pra te dar, às vezes penso em jogar fora ou doar para alguma criança carente de sorrisos.  Mas acabo por deixá-lo ali mesmo, na gaveta, intacto; e talvez ele fique lá para o resto da vida. Ou quem sabe eu me livre dele quando por acaso tiver me esquecido da finalidade da compra. Eu quis te dar tudo porque você sempre quis nada, nada da vida, nada da morte e nada de ninguém.
     Não, docinho, não tenho desejo de vingança. Nunca fui disso, acredite. Mas do fundo do meu coração, espero que um dia, num encontro futuro, nos cruzemos e você perceba tudo que passou batido. Perceba que eu sempre fui muito mais do que você podia suportar, mais até do que você merecia. E que pra fazer dar certo eu estive disposta a transformar meu muito em pouco, em quase nada.
      Uma vez, apenas uma vez eu quis ser menos, pra me enfiar em outra vida. Pra suprimir a força oposta, achar a estrela escondida que não se deixava brilhar. Teria dado certo, se meu amor não tivesse transbordado seu recipiente de merda, que não cabia nem você mesmo. Ou talvez nem assim. É... Não ia dar pé.
     Eu sinto saudade, apesar de tudo, eu juro que sinto muita saudade.


Com amor e ódio,
daquela que já foi sua.

2 comentários:

  1. pra matar essa saudade, desconte no presente. Siga instruções:
    você pode usar ele para si?
    a)sim -> fique com ele e use
    b)não -> joga fora no lixo

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  2. seus textos são perfeitos. parece que me encaixo em cada um deles.

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