Depois que você foi embora

Depois que você foi embora eu tive que aprender a lidar com borboletas. Parei de beber tequila. Me envolvi com coisas piores e acabei com meus pulmões. Não consegui mais andar na rua sem prestar minuciosa atenção nas placas dos carros. Passei por fases antagônicas - comer demais pra suprir a falta de amor, e parar de comer por me sentir tão incapaz de suprir qualquer falta. Quis provar todos os beijos possíveis até perceber que seriam sempre vazios demais, até perceber que estética nenhuma me deixaria tão sem ar como quando seus olhos me fitavam, do outro lado da rua, e eu ansiava por sentir logo o seu cheiro, seu abraço, seu corpo em mim. Depois que você foi embora eu tive que virar gente grande, começar a me cuidar, me defender sozinha. E aprendi a me defender de tudo, menos de mim mesma. Tentei acreditar com toda força que você não passava de um fantasma, que eu poderia excluir com facilidade quatrocentos e cinquenta e três dias dos meus dezessete anos de vida. Mas depois vi que não haveria nada capaz de unir as duas pontas, e no fim tudo acabaria exatamente como está, sem sentido, sem coerência, sem paz. Deus, como eu quis paz. Queimei livros, cartas, filmes, mudei móveis de lugar, e num impulso extremo mudei até de casa. Em vão, claro. Pois antes de dormir, distraída, deixei meu braço procurar seu corpo do meu lado e encontrar só um buraco no lençol, mais frio que meus pés. Só depois que você se foi, me dei conta de que minha vida se divide em três partes: antes, durante e depois. E por mais que eu tente estar posterior a tudo, ainda vivo dentro da gente, eu não desatei o nó. Ainda estou no durante. Deve ser por isso que ando assim. Tão sua, tão minha, tão de ninguém. Hoje decidi que vou parar de lutar para sair desse abismo, porque talvez eu nunca consiga. Ou talvez a saída esteja na minha cara e por vontade própria eu tenha fechado os olhos pra ela. E pra tudo que me afasta de você. Depois que você foi embora.

2 comentários:

  1. depois que ele/ela foi embora você só fez merda, hein?

    ResponderExcluir
  2. merda, haha, é verdade... mesmo assim, como pode ser tão lindo sofrer de amor?

    ResponderExcluir