ser só

A solidão pode não ser boa companhia. E acaba doendo muito quando não é opcional. Danço uma valsa triste comigo mesma, uma valsa que não é do meu tempo. E hoje de manhã, quando minha avó me disse que estava fraca, eu me senti mais fraca ainda. Ela não é minha força, mas é uma das fontes. Forças deveriam  surgir do nada, quem sabe assim eu seria forte suficiente para voltar a ser minha. Aos dezesseis cansei de ser minha. Não sei se foi meu reflexo no espelho, que me soou desinteressante em demasia, ou se a vontade de compartilhar foi tanta, que acabei decidindo doar-me ao mundo. O mundo não retribuiu, não me deu partes dele; ou se deu, escolheu as piores. Só por isso baby, só por isso eu queria não ser metade. Pra voltar a sorrir de novo.

coração encharcado

É água demais e sol de menos.
Não dá pra secar a chuva dos olhos, não dá pra aquecer o coração.
Quando olha para o lado e vê tantos escombros, minha casinha de madeira já não se lembra do quanto é forte.
Ela se esqueceu de que algo bem maior que o mundo a protege.
Proteção eterna que independe de crenças, memórias e momentos.
Tenho medo quando o vento acelera, quando a tempestade vem.
Faz frio demais, aqui, sem ninguém.
Só o amargo do cigarro com o doce do licor, a única metáfora cabível.
Que supera o superlativo dito na beira do engasgo involuntário.
Supera a falta e o olhar desconfiado.
Tá difícil de entender, eu sei.
Mas não complique ainda mais o meu amor.
Ele existe, basta.
Enxugue um coração encharcado que já não aguenta mais chorar e volta.
Mas vê se volta pra ficar.

na maratona da vida

Sentar e esperar, que a corrida traga o corredor até mim.
Não me interessa quantos passarão por aqui.
Ou o que o meu corredor encontrará pelo seu caminho.
O percurso, os outros, as curvas.
A eles, qualquer adjetivo pobre.
Ao meu, toda a força do mundo.
O importante é que chegue.
Num dia qualquer.
Como aquele.
Que tinha tudo para ser um dia qualquer.

why?


E de tanto amor dentro do peito, acabo por não poder dizê-lo. Aprendo, portanto, a guardá-lo, seja em diários, gavetas, ou até mesmo em mim, nos dedos que coçam com sede de palavras. Digo a eles que não é assim tão fácil, que há liberdade de expressão e também a ausência dela, tão responsável pela sede quanto a cachaça um dia antes da ressaca. O único risco verdadeiro nisso, é de o corpo se acostumar a ficar com tudo, o sentimento, a coisa toda, e depois sentir demasiada dificuldade em passar aos outros. Justo nesses tempos, de vazio, de banalidades, superficialidades, da falta de algo intenso. Os tempos são de carência, gracinha. De falta, incompletude. Seria uma perda enorme para o mundo, confesso. Tanto amor exaltado em segredo. Tanta coisa boa não compartilhada. Tudo dentro, nada fora. E eu aqui, querendo gritar.